O filme conta a história de um bote salva-vidas ocupado por nove náufragos: oito deles civis sobreviventes de um navio atacado por um submarino alemão e um deles (os outros descobrem depois) um oficial nazista que sobreviveu ao ataque. Enquanto todos procuram formas de sobreviver à deriva no mar, em busca de terra firme, a presença do alemão aumenta a tensão entre eles, mesmo que o inimigo seja capaz de ajudá-los a se salvarem daquela situação.
O longa tem um estilo bem sisudo ao se passar quase que inteiramente no bote, tendo os sobreviventes como o único elenco. A escolha de colocar a câmera inteiramente dentro do barco reforça aquele espaço como um ambiente claustrofóbico e isolado, em contraste com a vastidão do mar. Mesmo em um mundinho próprio e desolador, os nove náufragos ainda tentam viver, com intrigas, amizades, romances e diálogos intimistas. A ausência de trilha sonora também contribui para destacar o ambiente silencioso no qual eles estão perdidos e onde ninguém virá para resgatá-los.
A atenção do filme, concentrada nas únicas pessoas ali presentes, mostrando não só as dificuldades e as formas de sobrevivência, mas também as divergências entre elas, condensadas em um curto espaço de tempo, remete à diligência de No Tempo das Diligências – onde diferentes realidades e classes sociais conversam e entram em conflito.
Quando o filme foi lançado, na época em que a Segunda Guerra Mundial estava em seu ápice, ele foi mal recebido e criticado por supostamente ser simpatizante dos alemães ao mostrar o personagem nazi como o mais capacitado e inteligente. Porém, isso mostra como muitos não entenderam a abordagem irônica que Hitchcock buscou trazer.
Se No Tempo das Diligências colocava essas divergências para contar da formação da civilização norte-americana, o filme de Hitchcock as usa como uma alegoria microscópica do próprio cenário de guerra em que o planeta se encontrava. Todas as discussões fúteis constantes entre os personagens sobre o que fazer, mesmo em um cenário de vida ou morte, diz muito sobre a incapacidade deles de unir forças – por viverem brigando entre si por causa de discordâncias idiotas e competindo por visão de mundo, enquanto o personagem alemão é o único personagem autocentrado e objetivo naquele ambiente.
As nações aliadas estavam em transtorno e só os alemães sabiam onde queriam estar, o que fez com que eles obtivessem vantagem durante o conflito até certo período. Ir para o campo de batalha é uma tarefa que exige esforço de união para se concentrar em um inimigo comum. Um aspecto filosófico bem ácido que a obra traz, que está ligado à dialética hegeliana de senhor e escravo de uma forma que causa ainda mais perturbação entre os náufragos ali – o que eleva a qualidade do filme pela sua eficiência em levantar questões morais de sobrevivência, confiança e poder.
Como um todo, é uma obra bastante subestimada dentro da filmografia do cineasta dentro do período pré-anos 50 quando fez sucesso com Rebecca, e antes do seu auge enquanto cineasta e, dentre os filmes pouco conhecidos de Alfred Hitchcock. Seu reconhecimento deveria ser maior, não só por ser um filme com uma história diferente do que o público comum está acostumado, mas também porque ele propõe discussões bem fortes, que reverberam ainda hoje.
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