Um campo coberto de névoa, preocupantemente silencioso. Uma mulher é ouvida narrando um sonho em que assume uma forma espectral para adentrar os portões da propriedade que uma vez fora sua. O espectro passa por uma estradinha tortuosa, banhada pela escuridão, até chegar em uma mansão gótica, uma silhueta amedrontadora formada pela luz do luar.

Hitchcock sempre foi hábil ao apresentar o tom de seus filmes nos primeiros minutos e em Rebecca, a Mulher Inesquecível, seu primeiro filme hollywoodiano, não foi diferente. Sem seu habitual humor sórdido (já presente pelo menos desde 39 Degraus), o vencedor do Oscar de 1941 é disparado um dos filmes mais sombrios de seu realizador. Ambientado na macabra mansão Manderley, propriedade do atormentado Maxim de Winter (Laurence Olivier), Rebecca parece um filme expressionista transportado para a Hollywood da década de 1940.

Isso se deve ao controle que o diretor tem sobre sua linguagem soturna. Cenograficamente, a propriedade surge como uma entidade de imponência inquestionável que sufoca a protagonista sem nome (Joan Fontaine). Por fora, é cercada por um campo denso e misterioso e encontra-se suspensa na beira de um rochedo que dá para o mar. Por dentro, ameaça com suas portas imensas e pesadas e janelas que projetam sombras vegetais no interior, que parecem sugerir um emaranhado claustrofóbico de segredos, algo ainda mais reforçado pela fotografia que, como já dito anteriormente, trabalha com luzes e sombras remetentes a um modelo expressionista. As lentes de Hitchcock e do fotógrafo George Barnes insistem na inferioridade da nova Sra. de Winter diante daquele glamour megalomaníaco.

Falando da nova Sra. de Winter, Fontaine encarna perfeitamente uma protagonista assombrada por sua própria insegurança, esta que, por pouco, não toma a forma espectral de Rebecca. Como vemos tudo aos olhos da moça sem nome, não temos flashbacks expositivos ou aparições maniqueístas da personagem-título. Tudo mantém-se na sugestão, no campo das ideias. E tem algo mais assustador do que aquilo que não se conhece? Fontaine traz uma excelente performance corporal, na qual fica patente seu deslocamento. A forma como encosta nos cantos com hesitação, como olha para os lados desnorteada, como se encolhe quando sente-se acuada… Sua performance vai mudando conforme o cinismo de sua personagem aumenta, mais tarde exibindo olhares frios e um figurino sombrio, enlutado (algo sugerido desde os primeiros minutos). Rebecca estaria ressurgindo e dando nome àquela que não o tem?!

Ou estaria incorporada na medonha Sra. Danvers, governanta enervante da mansão interpretada com uma frieza robótica assustadora por Judith Anderson. Suas provocações venenosas quase não se diferenciam de sua postura formal, mudando apenas quando exibe momentâneos lapsos de admiração ou melancolia. Já Olivier transforma Max em um homem gentil mas extremamente errático e perturbado pelo passado, sugerindo quase sempre esconder um segredo obscuro.

A ausência do primeiro nome da protagonista não é gratuita. Sempre sendo referida pela forma com que Rebecca anteriormente também era conhecida e sempre cercada por iniciais de sua intangível “algoz” (os planos-detalhe que evidenciam sempre a letra “R” são óbvios mas sagazes), sua falta de identidade própria reforça não só seu status mínimo em meio àquele glamour como a própria pressão que sente na figura amorfa do fantasma do passado. A propósito, Hitchcock mais uma vez subverte o tom de sua obra na meia hora final, após uma reviravolta que pode soar não tão interessante, mas que prepara o cenário para outras mudanças de perspectiva que revelam que personagem nenhum ali sabe da história completa, algo evidenciado quando um deles afirma, decepcionado: “Rebecca venceu!”

Dono de uma atmosfera ímpar até mesmo na vasta e quase irretocável filmografia de seu diretor, Rebecca, a Mulher Inesquecível é um filmaço sobre rancor, obsessão, insegurança e loucura.