Eu havia comentando na minha crítica de Coração de Lutador, como os filmes de Josh Benny Safdie compartilhavam semelhanças temáticas e, provavelmente, estruturais, isso antes de assistir Marty Supreme. Curiosamente, a tragicomédia de Josh Safdie segue a mesma ideia de seus trabalhos anteriores, seguindo um homem que vai ao inferno em busca de um objetivo, trabalhando essa estrutura como uma comédia de erros que vai escalando até situações absurdas, possuindo a obsessão pelo esporte e pela vitória como temática central do filme. Porém, Marty Supreme faz algo que Coração de Lutador não realizou de forma plena: se utilizar de uma montagem caótica, muito típica dos irmãos Safdie, em meio a essa trama de obsessão desgastante, onde todos os acontecimentos cômicos são trágicos e ácidos e que afundam Marty (Timothée Chalamet) em sua própria ambição.

Josh Safdie adota uma abordagem peculiar, quando se trata do gênero de cinebiografias, ainda mais aquelas relacionadas aos esportes. Nas narrativas americanas do gênero, é comum lidarmos com histórias de superação, finais épicos onde o protagonista vence e prova sua capacidade extraordinária, passando por diversos acontecimentos sofridos que criam essa ligação emocional quase que instantaneamente. Em Marty Supreme, nada disso existe, ou melhor, até existe, mas realizado de maneira subversiva, reformulando de maneira formal a trajetória do esportista americano em busca da grandiosidade.

O filme é construído de maneira muito semelhante a Joias Brutas, centrado em um personagem com sérios problemas comportamentais lidando com diversas fatalidades emocionais. Marty é prepotente, convencido, com o ego extremamente inflado, disposto a sacrificar tudo e todos por sua ambição, mas que vive sob condições que não atendem esse estado de espírito. Preso a um emprego de vendedor, sem dinheiro, sem apoio do governo, Marty batalha contra o mundo e contra as pessoas próximas de si, tornando-os apenas pequenas ferramentas que podem ou não ajudá-lo, transformando-se em uma bomba nuclear emocional. 

Diante dessas características ansiosas e aceleradas, Safdie filma os acontecimentos de maneira intrusiva, com a câmera sempre muito próxima aos rostos de seus personagens. Isso ainda combinado com a montagem altamente frenética, de maneira que as malandragens e os trambiques de Marty se tornam o fio condutor do caos visual e narrativo que o diretor emprega em sua obra. 

No meio do caos que é Marty Supreme, Safdie traça a crônica do homem com uma ambição destrutiva, apesar de altamente talentoso, ao mesmo tempo que cria uma certa fascinação pelo esporte em si. Marty pode ser um vigarista em diversos momentos, mas quando empunha a raquete, ele se torna um servente do esporte e da competição. Isso fica muito claro nas cenas de jogo, onde o diretor se recusa a filmar de maneira picotada e ofuscada, tornando as partidas de ping pong um dos grandes pontos altos do longa. Ele concede ênfase aos movimentos e a tensão, algo que torna essas sequências não apenas segmentos que dão continuidade à narrativa, mas sim em momentos cruciais que exaltam a natureza caótica de Marty Supreme.