Em determinado momento, em meio ao caos tropical de Copacabana Mon Amour, a prostituta favelada Sônia Silk (Helena Ignez) começa a posar para potenciais clientes encostada em uma viatura de patrulha da Polícia Civil, com seu vestido vermelho curtíssimo. Segundo Ignez, já idosa, um grupo de policiais se encontrava próximo ao local da filmagem e, por pouco, não notou sua presença.
Esse é, possivelmente, um dos momentos mais definidores do movimento marginal liderado por Rogério Sganzerla na virada dos anos 1960 para os anos 1970. E um de seus mais sutis, o que não é dizer muita coisa. Afinal, o interesse na sutileza da transmissão de suas denúncias sociopolíticas era praticamente inexistente, servindo de contraponto justamente a um certo academicismo intelectual que os cineastas marginais diziam estar infectando o Cinema Novo. Nesse contexto, a Boca do Lixo em São Paulo e a Belair Filmes no Rio de Janeiro mergulhavam em um sistema de produção contracultural, incisivo e especialmente iconoclasta, que pegava elementos da cultura pop imperialista e os subvertia nessa “estética do lixo”.
Copacabana Mon Amour faz isso de outra forma. Lançado em um contexto de repressão política e entreguismo ao estrangeiro, o longa usa um dos principais cartões postais do Rio, o bairro nobre de Copacabana, e o transforma em um catalisador das insatisfações da periferia e dos marginalizados. Sônia e seu irmão Vidimar (Otoniel Serra), em um transe causado pela própria fome e miséria, “poluem” o cenário idílico vendido pela Ditadura Militar aos gringos, como uma instalação artística de protesto em meio a um monumento de propaganda.
Ademais, há uma certa ironia semiótica na forma como Sganzerla captura o contraste social provocado por essa desigualdade. Em um momento icônico, logo nos primeiros minutos, Sônia desce do morro, após encarar Copacabana de um mirante rochoso, que a transforma em uma espécie de ser superior. Ela caminha e observa sobre todos os habitantes e visitantes daquele “paraíso tropical”, antes de invadi-lo levando o caos de sua insatisfação marginal. E esse caos ser acompanhado por uma trilha original de Gilberto Gil reflete exatamente a abordagem temática e formal de Sganzerla, do uso sarcástico e metalinguístico do idioma inglês às letras aparentemente abstratas e sem padrão narrativo. É uma sacada de mestre de um momento cultural brasileiro que parecia convergir em todas as suas frentes contra o regime autoritário vigente.
Porém, eu preciso confessar que Copacabana Mon Amour, mesmo com seus míseros 80 minutos de duração, me cansa rápido. Da mesma forma que admiro esse modo direto do Cinema Marginal que dispensa sutilezas, também acredito que ele por vezes acaba caindo no discurso pelo discurso. É muita repetição de gestos e frases, alguns monólogos irritantes (especialmente pelo personagem de Guará Rodrigues), longos momentos de danças e gritos tresloucados. Da mesma forma que entendo e respeito esses trechos como um choque do protesto encenado do Cinema Marginal, acabo sempre me questionando: o quanto a manutenção repetitiva desse caos de fato é efetiva na transmissão dessas ideias? O quanto esse caos não afasta o espectador ou esvazia a temática sociopolítica da obra de forma semelhante ao academicismo do Cinema Novo, que Sganzerla e seus parceiros tanto criticavam à época? O quanto esse caos pode ser enxergado não como uma maior proximidade das insatisfações do povo, mas sim como uma nova forma de elitizar o cinema brasileiro, mesmo que de forma não intencional e mais incisiva e arriscada?
Não serei arrogante a ponto de tentar responder esses meus questionamentos sem uma leitura muito mais aprofundada em relação ao movimento, até porque também preciso adquirir mais bagagem fílmica para isso. Mas acho que vale sempre questionar se tudo que é mais direto e incisivo é inerentemente melhor do que aquilo que é visto como academicista. Cada obra é uma obra e devemos encarar a resposta dos cineastas marginais aos “cinemanovistas” como um ponto importante da história do nosso cinema e não como juízo de valor de outro movimento movido por outras ideias. O cinema é mais plural do que isso.