Memórias de Ontem representa o primeiro grande diálogo entre Hayao Miyazaki e Isao Takahata no Studio Ghibli. Isso porque seu lançamento se deu somente dois anos depois de O Serviço de Entregas da Kiki, e ambos os filmes parecem se complementar enquanto destacam as peculiaridades de seus diretores.
Assim como o longa de 1989, o presente é um coming of age. Porém, dessa vez não temos bruxas, gatos falantes ou aventuras. Pelo contrário, Memórias de Ontem é extremamente singelo ao contar a história de Taeko, uma mulher de 27 anos e originária de Tóquio, que decide viajar a Yamagata para visitar a família de seu cunhado e ajudar na colheita anual da cidade. Na viagem e após chegar a seu destino, acompanhamos alternadamente as suas lembranças da infância e o tempo presente. Desse modo, em vez da deliciosa tradição lúdica de Miyazaki, a narrativa de Takahata é realista, mas sem perder a sensibilidade e a calma presente nas obras de ambos os criadores.
Apesar de menos pretensioso e mais singelo em sua proposta, não se pode confundir Memórias de Ontem com um filme simples. Dentro dessas ideias aparentemente bem diretas, há uma complexidade fascinante.
Primeiramente, porque não se trata de um coming of age tradicional. Aqui, temos um duplo coming of age baseado na justaposição entre Taeko deixando de ser criança (o fundamento normal das obras do gênero) e ela, já adulta, tentando superar seus traumas e encontrar seu caminho no mundo, assim como, finalmente, vendo-se como merecedora de afeto. Por sua vez, esses dois aspectos se apresentam com características totalmente diferentes.
Um dos primeiros trechos de memórias da protagonista ocorre quando ela se recorda de um evento envolvendo menstruação e escola; um segmento que mais parece uma anedota, em especial pelo tom leve e jocoso da Taeko adulta comentando tais questões. Prosseguindo, vemos uma diversidade de acontecimentos, tais como o sonho frustrado de ser atriz, a relação fria com o pai, o menino que gostava dela e manifestava isso desdenhando-a, entre outros; estes já não tão leves, apesar de como a protagonista os trata olhando em retrospecto. Tudo isso é basilar para a construção da personalidade de Taeko, mesmo que, numa análise superficial, pareçam “inúteis” para a trama, refletindo-se, dessa forma, no segundo coming of age da narrativa.
Nos seus 27 anos, a mulher ameniza seu sofrimento passado. Os traumas se tornam, como mencionado antes, meras anedotas para ela; entretanto, para nós, olhando de fora, eles continuam sendo traumas. É uma dialética cruel em que Taeko fica presa a seu passado em prol de conseguir continuar vivendo como adulta e se reflete na dualidade estética da obra, cuja beleza ameniza essas feridas psicológicas. Tal visão é bastante peculiar, visto que foge do padrão de drama e apresenta suas questões com uma sensibilidade ímpar.
No final, vemos como o amadurecimento é um processo que vai bem além da transição de criança para adolescente. Amadurecer é, acima de tudo, um movimento de constante destruição e reconstrução, de revisita e reinterpretação. Apesar de não ser possível mostrar todas as complexidades da vida humana em um filme, é sempre belo como Takahata consegue apresentar pequenos trechos da humanidade e dar a eles o tamanho e peso que merecem, sem nunca cair no vício de romantizar o trauma ou se render à superficialidade de reduzir a condição humana às lições comuns das animações (tais como a ideia “aproveitar os pequenos momentos”, tão repetida pela Pixar). Embora infelizmente não tão mencionado quando se discute o Studio Ghibli, Memórias de Ontem é um dos mais inesquecíveis do estúdio; mesmo não tendo momentos grandiosos ou a fantasia de outras obras dele, consegue ser tão mágico quanto elas por explorar de maneira tão sensível as minúcias da nossa complexa existência.