Tanto no Ocidente quanto no Oriente, o terror tem origens em tempos muito antigos e com documentação escassa. Por séculos, a cultura oral desenvolveu o que hoje chamamos de folclore, o qual, por sua vez, foi contado, revisto, reimaginado, corrompido e recuperado dentro das narrativas escritas, pintadas, encenadas e filmadas. Essas lendas repetem medos universais da humanidade como a morte, a insegurança do pós-vida, o desconhecido e o sofrimento; mas também se moldam às características do povo que as cria. Por isso, há histórias muito próprias de certas localidades — como temos aqui o Curupira, por exemplo, muito relacionado às crenças indígenas e na sua relação com a floresta — e há contos que se repetem, notavelmente os fantasmas e os demônios, em roupagens diferentes.
Dentro dessa diversidade, o Japão se destaca por ter mitos particularmente ricos e especialmente assustadores em relação a outros locais. Muito associada ao xintoísmo — termo que se refere ao mais antigo conjunto de tradições espirituais do povo japonês, com raízes pré-históricas, que tem como características principais o culto à natureza, aos antepassados e aos kami, algo próximo do que conhecemos no ocidente como “espíritos” —, essa cultura popular construiu uma mitologia ampla de várias criaturas e contos, muitas vezes utilizados para reforçar normas sociais. Dentre os muitos termos essenciais para entender o folclore japonês, destacam-se o yokai, que designa todo tipo de criatura sobrenatural; o oni, correspondente a criaturas humanoides monstruosas e maldosas (ainda que o conceito de “mal” tenha outra acepção no contexto japonês), algo como os nossos “demônios”; os obake ou bakemono, seres que têm o poder da metamorfose (como em Pompoko, de Isao Takahata); e os yurei, os espíritos vingativos, normalmente do sexo feminino. Essas tradições foram particularmente populares durante o Período Muromachi (1338-1573), o breve Período Azuchi-Momoyama (1573-1603) e o Período Edo (1603-1868), quando eram chamadas de kwaidan.
Contudo, elas começaram a ser melhor registradas e difundidas pelo mundo apenas no fim do século XIX, já no Período Meiji (1868-1912), quando o irlandês Lafcadio Hearn realizou uma pesquisa sobre a cultura oral japonesa, consolidando seus achados no livro Kwaidan: Stories and Studies of Strange Things em 1904. Naturalmente, essas histórias, agora melhor documentadas, foram transferidas ao cinema, o qual dava seus primeiros passos no Japão com as gravações teatrais realizadas por Shibata Tsunekichi, principalmente no filme Momijigari, de 1899, um dos poucos preservados até o dia de hoje. Há discussões sobre o primeiro filme de terror do Japão, visto que grande parte do primeiro cinema japonês foi perdido, e que a delimitação do que seria uma obra de horror é discutível, por haver características desse gênero em quase todas as obras — inclusive no próprio Momijigari, que mostra um oni, mesmo não sendo propriamente uma narrativa do gênero terror. Algumas fontes mencionam a obra Bake Jizo de Shiro Asano, que teria sido gravado em 1898, antes mesmo do curta de Tsunekichi, o que o colocaria como um dos primeiros filmes de terror do mundo; porém não há evidências de que tal obra realmente existiu, pelo fato de todas as informações sobre ele terem sido contadas apenas pelo próprio Asano, sem qualquer prova física de sua existência. Considerando as dificuldades de remontar à origem do terror cinematográfico japonês, outras fontes colocam Uma Página de Loucura (Kurutta Ichipēji), dirigido por Kinugasa Teinosuke e lançado em 1926, como um dos primeiros marcos para o gênero.

Uma Página de Loucura (Kinugasa Teinosuke, 1926)
Entretanto, um consenso entre os historiadores é que o horror no Japão só veio a se consolidar verdadeiramente no pós-guerra, especificamente como um resultado do bombardeio de Hiroshima e Nagasaki em 1945. Nessa época, foram particularmente populares os filmes de kaiju (os monstros gigantes) que explodiram em 1954 com o clássico Godzilla, dirigido por Ishiro Honda. Nesse contexto, também se destacam filmes de yokai, especialmente aqueles que abordavam os oni e os yurei, como os paradigmáticos Onibaba, de 1964 e comandado por Kaneto Shindo; e Kwaidan, antologia de Masaki Kobayashi lançada no mesmo ano. Algo que une esses três longas (e todos os outros que deles decorreram) é a união da tradição folclórica com a violência inédita que foi imposta ao país na Segunda Guerra Mundial, de modo a formar um novo tipo de trauma coletivo, o qual se manifestou no cinema com a consolidação do horror como gênero próprio. Godzilla era uma representação do terror gerado pelas bombas atômicas, mas também sobre como a natureza responde à ação destrutiva humana, sob a perspectiva da forte conexão da cultura coletiva japonesa com o universo natural; Onibaba unia a lenda budista do yome-odoshi-no men ou niku-zuki-no-men (que narra a história de uma sogra que usa uma máscara assustadora e impede sua nora de ir em um templo, e é punida com a máscara sendo fundida à sua pele), os contos folclóricos, elementos do teatro noh e as imagens das consequências da guerra na sociedade japonesa; e Kwaidan reimaginava as lendas descritas no livro supracitado de Hearn com as características de um terror psicológico moderno, que se diferenciava daquele feito no ocidente e se tornaria a marca registrada do horror japonês nas próximas décadas.
A história do cinema, porém, tem uma velocidade especialmente rápida em relação à história de outras artes. Por isso, enquanto os pilares do gênero ainda estavam sendo moldados, cineastas já se propunham a subverter esses pilares e a experimentar. Assim, os anos 1960 e 1970 se convertem em uma mistura entre o terror psicológico influenciado por Kwaidan; as infinitas franquias de kaiju fundadas por Godzilla; o início das adaptações ao cinema das histórias de ero guro, marcadas pela tentativa de choque a todo custo, as quais iriam atingir seu ápice nos anos 1980 e 1990 com obras como Bijo no harawata, Shojo no harawata e Shōjo Tsubaki; e produções com temas bem peculiares, como os kaibyo eiga ou bake neko mono, os filmes de gatos monstruosos ou fantasmas. Neste último nicho, surgiu o longa mais conhecido, influente e curioso dessa época: Hausu, de 1977 e dirigido por Nobuhiko Obayashi, um misto de terror e comédia que alterna imagens bizarras, efeitos visuais criativos, técnicas inovadoras, influências do slasher ocidental e comentários sociais em um formato psicodélico fascinante.

Hausu (Nobuhiko Obayashi, 1977)
Assim como no restante do mundo, a segunda metade dos anos 1980 viu uma diminuição da produção cinematográfica nacional em prol da importação das produções da indústria dos Estados Unidos. Apesar de o Japão ter um cinema bastante consolidado e mundialmente conhecido nessa época, muito por conta de Akira Kurosawa, que estava sendo constantemente premiado no cenário internacional por Ran, de 1985, e que serviu de apoio para o primeiro festival internacional de cinema no país no mesmo ano; isso não impediu uma queda na produção japonesa de filmes, que teve sua fatia de mercado reduzida para somente 40% ao longo dos anos 1990. Essa mudança atingiu fortemente o terror, que foi vítima de uma queda progressiva de interesse do público, apesar de alguns lampejos ainda existirem, como Tetsuo em 1989, dirigido por Shinya Tsukamoto.
Frente a essa situação, o gênero teve que se reinventar. Assim, nos anos 1990, uma nova leva de mídias de terror se iniciou, principalmente a partir da trilogia Honto ni atta kowai hanashi (Tsuruta Norio, 1991-1992) e da franquia Gakkô no kaidan (1995-2001), que reacenderam o interesse do público japonês pelo gênero. Era o início do conhecido j-horror, que chegaria a seu ápice no fim dos anos 1990 e começo dos anos 2000, com a série de filmes Tomie, de Ataru Oikawa, baseado nos mangás de Junji Ito; Uzumaki de Higuchinsky, também adaptação de Ito; Shikoku de Shunichi Nagasaki e outros, além dos videogames Resident Evil (1996), Silent Hill (1998) e Fatal Frame (2001). Contudo, dois filmes colocaram de vez o Japão no cenário mundial do terror e revolucionaram o gênero de forma definitiva: Ring: O Chamado, de Hideo Nakata e lançado em 1998; e Ju-on: O Grito, dirigido por Takashi Shimizu e que veio ao público em 2002.

Ring: O Chamado (Hideo Nakata, 1998)
Adaptado do livro Ringu de Koji Suzuki, Ring: O Chamado conta a história de Reiko Asakawa (Nanako Matsushima), uma jornalista que, intrigada pela morte misteriosa de sua sobrinha, descobre que a falecida e outros três amigos, os quais também morreram ao mesmo tempo, assistiram juntos a uma fita de cenas aparentemente desconexas. Reiko, então, assiste à fita e, convencida de que sua vida está em perigo, busca a origem da maldição para a interromper, o que a conecta ao mistério da menina monstruosa Sadako (Rie Ino). Ring: O Chamado retoma aquela tradição japonesa de unir o antigo e o novo, misturando o arquétipo do espírito vingativo na imagem de Sadako com as ansiedades modernas, materializadas na fita de vídeo; além de tocar em temas sociais como maternidade e a rápida difusão da tecnologia e da informação. A obra de Nakata se tornou a maior bilheteria da história do país, e levou ao conhecido remake O Chamado, de 2002, dirigido por Gore Verbinski, que tornou a história ainda mais famosa por meio da mundialmente reconhecível Samara, versão ocidental de Sadako.
Paralelamente, um jovem Takashi Shimizu era notado por Kiyoshi Kurosawa na faculdade e começa a explorar sua visão do j-horror. Após dois curtas incluídos em Gakkō no Kaidan G, de 1998, produziu os dois primeiros filmes de Ju-on nos anos 2000, ambos com lançamento doméstico, os quais deram ao diretor a oportunidade de dirigir um longa para os cinemas em 2002. Ju-on: O Grito é composto por uma série de contos interconectados de forma não linear, ambientados em uma casa onde um marido matou brutalmente a esposa Kayako, o filho Toshio e o gato Mar, os quais se tornam yurei e iniciam um banho de sangue contra todos que ousem entrar na casa. Uma mistura da lenda dos onryo, um tipo de espírito vingativo que consegue causar danos ao mundo real; da história de yotsuya kaidan, uma peça de teatro kabuki sobre uma mulher que volta para se vingar do marido que a matou; dos visuais dos teatros kabuki e noh e das danças butoh; em conjunto ao medo moderno do aumento de casos de violência doméstica registrados no Japão na década de 1990, assim como da crise demográfica que já se anunciava; Ju-on: O Grito se destacava por como trabalhou o terror psicológico tanto pelos sustos mais imediatos quanto pelo senso de desesperança e de fatalismo que servia de substrato à narrativa. Assim como O Chamado, um remake americano chamado apenas de O Grito foi dirigido pelo próprio Takashi Shimizu e lançado em 2004, que uniu as raízes japonesas às demandas do público ocidental.

Ju-on: O Grito (Takashi Shimizu, 2002)
Tanto simultaneamente quanto após a explosão desses dois filmes, diversas outras obras tomaram o imaginário dos cinéfilos da época. Dentre elas, Kairo, de Kiyoshi Kurosawa, que aborda de forma ímpar as assombrações japonesas, dessa vez por meio da internet, usando de tal contexto para comentar sobre a solidão do mundo moderno; Água Negra de Hideo Nakata, que acompanha uma mãe divorciada que precisa lidar com uma inundação misteriosa em seu apartamento (e que curiosamente teve um remake de Walter Salles em 2005); e Chakushin Ari de Takashi Miike, que também explora as ansiedades geradas pela tecnologia. Ainda nas décadas de 1990 e 2000, dezenas de outros são igualmente essenciais como Perfect Blue (Satoshi Kon, 1997), Cure (Kiyoshi Kurosawa, 1997) e Noroi (Koji Shiraishi, 2005), porém não irei comentá-los neste momento, a fim de não perder o caráter introdutório deste texto.
Apesar de a tendência do j-horror ser muito característica de uma época bem definida, pode-se dizer que o horror japonês permanece com as mesmas características até os dias de hoje, mesmo que as obras pós-2010 não tenham o mesmo impacto — algo causado tanto pela perda do caráter de “novidade” quanto pela substituição das criaturas japonesas pelas americanas no imaginário popular, como ocorre com a popularização da imagem de Samara em prejuízo da de Sadako ou com a versão reimaginada para o ocidente de Kayako, por exemplo. Isso não significa, porém, que não houve filmes de destaque. Seguindo as temáticas e o formato já apresentados nos anos anteriores, Sion Sono foi particularmente relevante com filmes como Tsumetai nettaigyo (2010) e Real Onigokko (2015); Takashi Miike retornaria com Lição do Mal em 2012 e com Por Cima do seu Cadáver em 2014; Kuru, de Tetsuya Nakashima teve alguma atenção em 2018 e uma curiosa iniciativa de Koji Shiraishi — muito inspirada nos crossovers americanos — colocou frente a frente Sadako, de Ring e Kayako, de Ju-on, em Sadako vs. Kayako, de 2016.

Kairo (Kiyoshi Kurosawa, 2001)
Seguindo a atual conjuntura do cinema mundial, os anos 2020 fizeram com que os estúdios, especialmente a Netflix, buscassem a nostalgia ao voltar à época de ouro do j-horror e misturar isso com algumas tendências atuais, como a união de filmes com estilos totalmente diferentes. Nesse sentido, Re/Member de Eiichiro Hasumi mesclou as características do gênero com o loop temporal; Kisaragi Eki de Jiro Nagae explorou uma famosa lenda urbana da internet; Sadako DX de Hisashi Kimura tentou atualizar Ring para os dias atuais; e a série O Grito: Origens de Takashige Ichise e Mikihiko Hirata buscou repetir o sucesso de Ju-on: O Grito. Ademais, Kiyoshi Kurosawa voltou ao terror com Cloud: Nuvem de Vingança, em 2024, Takashi Miike dirigiu Kaibutsu no kikori em 2023, e Takashi Shimizu adaptou o mangá Homunculus em 2021.
Dessa forma, é evidente como o cinema de horror japonês é rico, com um impacto que influencia e continuará influenciando cineastas de todo o mundo. As informações presentes neste texto são apenas uma breve introdução ao imenso e fascinante universo do gênero, essencial para qualquer cinéfilo. Para aprofundamento, recomendo as leituras que deixo nas referências, as quais servirão para uma contextualização ainda melhor desses grandes filmes.

Kwaidan (Masaki Kobayashi, 1965)
REFERÊNCIAS
BALMAIN, Colette. Introduction to japanese horror film. Edimburgo: Edinburgh University Press Ltd, 2008.
BUSCHER, Rob. A brief history of japanese horror. The Rikumo Journal, 2017. Disponível em: https://journal.rikumo.com/journal/paaff/a-brief-history-of-japanese-horror
EOFFTV – The Encyclopedia of Fantastic Film and Television. Bake jizo (1898). Disponível em: https://eofftv.com/bake-jizo-1898/ .
MIYAO, Daisuke (Editor). The Oxford handbook of japanese cinema. Nova York: Oxford University Press, 2014.
MURGUIA, Salvador (Editor). The encyclopedia of japanese horror films. Londres: Rowman & Littlefield, 2016.
SHARP, Jasper. Historical dictionary of japanese cinema. Scarecrow Press, Inc, 2011.