Em 2025, passei pela pior crise depressiva da minha vida. Por diversas razões que não irei mencionar aqui, essa doença contra a qual luto há tantos anos conseguiu enfim destruir quase por completo a minha existência. Durante esse período, o que mais me afetou — e, sendo a depressão um fenômeno que se retroalimenta, prolongou minha crise — foi como os pilares que determinavam a minha identidade e a minha visão de mundo ruíram um por um. Todos somos como Sísifo, já dizia Albert Camus, buscando sentido em um mundo irracional e ininteligível; porém minha versão de Sísifo já não conseguia sentir qualquer resquício de felicidade enquanto levava a pedra ao topo da montanha. Em vez de imaginar Sísifo feliz como queria Camus, eu ouvia mais os versos de Shirley Manson, do Garbage, na música Sisyphus:

“Estou preso no fundo de tudo
E estou olhando pra cima
Não consigo evitar de me perguntar
Se vou conseguir me levantar
Eu tenho a mente pra fazer tudo de novo?
Eu tenho a vontade?
Eu tenho a força?
Consigo empurrar aquela pedra morro acima de novo
Assim como Sísifo?”.

Nesse período, a alegria que mais perdeu o sentido — e cuja perda foi de longe a mais dolorosa — foi o aproveitamento da arte. Por que ver filmes, ler livros ou ouvir músicas se isso não vai resolver a efemeridade e a falta de sentido da existência? Racionalmente, eu entendia os argumentos filosóficos: a pedra sempre irá cair, então Sísifo deve procurar felicidade mesmo assim, como dizia Camus; o universo tem um caminho próprio e independente dos nossos planos, e devemos abraçar o caos em prol de manter a nossa paz, como ensina a tradição filosófica taoísta; a existência precede a essência e somos condenados a sermos livres, logo, temos a prerrogativa de escolher nosso próprio sentido, como queria Sartre. Contudo, meu cérebro já não era mais capaz de aproveitar o prazer do trajeto e da busca de sentido, o que fez a arte, parte tão fundamental do meu ser, se tornar algo tão frio e indesejável quanto qualquer objeto inanimado.

Com muita luta, várias recaídas e algumas importantes idas ao psiquiatra, passei por essa fase. Entretanto, como se sabe, a recuperação de algo tão elementar quanto o sentido da existência não é linear (e até hoje não consegui recuperar totalmente). Ainda faltava algo, alguma coisa que me despertasse o “brilho no olho” e o desejo de viver, da mesma forma que eu tinha quando era criança; algo que me conectasse ao mundo de novo e me fizesse olhar para a jornada da vida como belo. É aí que entra Hayao Miyazaki, o Studio Ghibli e, é claro, Meu Amigo Totoro.

Nos últimos meses, decidi finalmente imergir nesses filmes, começando pelo começo, com Nausicaä do Vale do Vento, e foi amor à primeira vista. Como citei em críticas de outras obras do estúdio, um ponto que me agrada muito nessas animações é como elas têm um ritmo que nos possibilita apreciar cada minúcia delas, nos permitindo, em última instância, sentir de forma completa o significado dessas produções para além da narrativa. De uma forma peculiar a cada um, tive uma percepção semelhante acerca do divertido O Castelo no Céu e do desolador Túmulo dos Vagalumes. Entretanto, não estava preparado para como Meu Amigo Totoro lida com essa questão, e certamente não previa a profunda conexão que criei com a obra.

Meu Amigo Totoro

Passando a abordar o filme em si, Meu Amigo Totoro acompanha as irmãs Mei e Satsuke após elas se mudarem com seu pai para uma nova casa no interior do Japão, a fim de a família ficar mais próxima da mãe das meninas, que se encontra hospitalizada. Lá, as irmãs descobrem que a floresta próxima da casa é habitada por espíritos mágicos chamados Totoros, os quais lhes mostram um novo mundo.

Aqui, meu longo prólogo será útil. Em meio a um desânimo generalizado quanto à beleza do mundo independentemente de seu fim, Meu Amigo Totoro me fez ver como a jornada é a única coisa que importa. Mesmo com todos os problemas que enchiam a minha cabeça, acompanhei 86 espetaculares minutos de um filme sem uma estrutura narrativa tradicional, com pouquíssimos problemas ou obstáculos para os personagens, sem um antagonista e sem qualquer preocupação em explicar aquele universo; e isso foi mágico. A arte não é sobre um começo, meio e fim, tampouco sobre passar uma mensagem bem definida, é sobre expressar os traços da nossa humanidade.

A obra de Miyazaki tem como único fio condutor a felicidade e a fantasia. É como se a beleza do olhar infantil — do qual nós nos distanciamos cada vez mais com o passar dos anos — fosse materializada em uma animação. A narrativa nada mais é do que um trecho da existência daquelas meninas, sem se atentar a preocupações bobas como a de fazer uma estrutura de três atos, e retrata como qualquer parte da vida pode ser bela, independentemente de um desenvolvimento mais racional acerca dos acontecimentos que baseiam essa ideia. Aliás, sequer precisamos do Totoro para ver essa beleza, visto que tão encantadora quanto a relação das irmãs com as criaturas é o amor cultivado entre elas.

O caráter bucólico dos cenários também ajuda muito nisso. É hipnotizante como cada detalhe dos grandes campos e florestas é desenhado, demonstrando mais uma vez o profundo respeito que Miyazaki tem em relação à natureza. Inclusive, é muito interessante como a narrativa inclui os Totoros no âmbito da natureza; isso porque eles não são vistos pelos personagens como entes metafísicos, mas como partes misteriosas da floresta. A fantasia é muito natural àquele mundo, e não deve nada à nossa racionalidade. A felicidade basta, sentir é o suficiente e a beleza está em abraçar o fantástico.

Era tudo que eu precisava. Sinceramente, esse filme é tudo que qualquer pessoa precisa. Poderia ficar aqui discorrendo sobre como todos têm o dever de fazer diversas coisas: de se politizar, de buscar ajuda quando necessário, de lutar pelo seu bem-estar e de outros. Entretanto, uma obra como essa passa longe de ser sobre conscientização ou sobre deveres, e isso não retira sua importância. Já temos muitas preocupações e poucos momentos de conforto. Nessa situação, o que Miyazaki oferece é um longa que parece um abraço carinhoso, daqueles que são capazes de eliminar o sofrimento instantaneamente. Em meio ao caos, uma sensação inigualável de paz.

Esse conforto provindo da paz é o que faz a jornada valer a pena, e é algo que Miyazaki respeita profundamente. Já é bastante conhecido o conceito de “ma” (間) na língua japonesa, que se refere ao vazio ou ao intervalo entre elementos, trazendo harmonia às partes que o cercam. Meu Amigo Totoro é, entre tantas coisas, sobre harmonia: do ser humano com a natureza, do real com o fantástico, da família com a individualidade e dos acontecimentos com o vazio. A concatenação dos acontecimentos não se dá buscando somente retratar a narrativa, mas sim atingir um estado de vazio e de paz belíssimo. São poucos momentos na trama em que temos problemas ou mistérios; tudo parece parte da natureza, que constrói o mundo por caminhos que a nossa racionalidade nunca vai entender por completo.

Voltando àquele assunto da depressão, é incrível como Meu Amigo Totoro foi uma parte essencial para tirar o niilismo de mim. Em oposição ao Sísifo deprimido de Shirley Manson, passei a respeitar muito mais a espera e o vazio, de uma maneira que nenhuma obra de arte antes havia me feito respeitar. Em um trecho de A Gaia Ciência, Nietzsche questiona ao leitor se, acaso aparecesse um demônio lhe informando de que sua vida irá ser vivida da exata mesma forma pela eternidade, em uma eterna repetição, o leitor aceitaria de bom grado ou amaldiçoaria tal demônio. Com isso, o autor alemão — de forma enigmática, como de costume — busca definir como a afirmação final da vida é estar em paz com a totalidade dela, e isso vai muito além da velha lição de “aproveite cada momento”; vez que não é sobre a busca do prazer, e sim sobre harmonizar o ser à ordem das coisas, além de buscar fazer escolhas conforme tal ordem. Meu Amigo Totoro encarna a harmonia e a beleza de abraçar integralmente a vida, passando por diversos acontecimentos — a doença da mãe, a mudança na vida das crianças, a “casa assombrada”, o encontro com os espíritos da floresta, a problemática que ocorre no final do filme, entre outros — sem nunca os fazer um juízo de valor acerca deles. A vida não é positiva ou negativa, ela simplesmente é, e a natureza não deve nada a nós. Filosofia é importante, mas não há filosofia que nos faça ver isso tão nitidamente quanto uma obra como essa, que se tornou uma das mais importantes para mim. Não há nada mais importante para o nosso ser do que aprender a existir, e temos sorte de termos alguém como Miyazaki para nos ajudar.