Os gatos, junto de raposas e cães-guaxinins, são talvez os animais sobrenaturais mais populares do folclore japonês. Os chamados kaibyos (no literal: gatos estranhos) abrangem desde yokais felinos (tipo de entidade) até gatos domésticos longevos que adquirem poderes mágicos especiais, com histórias centenárias repassadas ao longo dos anos na cultura do país. Essas narrativas em geral falam de assombrações vingativas, em que os gatos, muitas vezes tomando forma de mulheres, voltam para vingar a morte de seus donos. Nem sempre os felinos são maléficos, assumindo muitas vezes uma moral neutra e justa, por vezes até benevolente.

Um dos contos mais famosos é a Lenda de Nabeshima, em que Nabeshima Mitsushige, um daimyo (um senhor feudal do Japão) matou seu servo pessoal, Ryūzōji Matashichirō, ao perder em um jogo de tabuleiro contra o homem. Arrasada, a mãe do serviçal contou todo o seu lamento para o gatinho de estimação antes de cometer suicídio. O bicho, ao lamber o sangue da tutora, transforma-se em um tipo de kaibyo. Dessa forma, a entidade passa a aterrorizar o daimyo todas as noites até ser descoberto e morto por outro servo leal. Esta lenda foi adaptada em peças de teatro ao longo dos anos e também ganhou versões para o cinema, com a mais famosa sendo O Gato Fantasma de Nabeshima”(Watanabe, 1949).

Nesta lenda a entidade presente é uma das mais comuns em contos desse estilo, que é o bakeneko – um tipo de yokai que normalmente é representado por um gato com um pano na cabeça. Seu principal poder é assumir outras formas, inclusive a forma humana (em geral do tutor morto) e também reanimar e possuir cadáveres. Um gato doméstico pode tornar-se bakeneko vivendo por mais de 13 anos, lambendo sangue humano ou tomando muito óleo de lamparina (que no Japão era feito com óleo de peixe). Os bakenekos comem principalmente carne de bichos de todos os tamanhos, podendo às vezes incluir humanos.

BakenekoBakeneko por Kawanabe Kyosai (1831-1889)

A popularidade desse tipo de história, envolvendo os kaibyos, permeou o cinema japonês desde os primórdios, mas teve um pico de popularidade desde a época da segunda-guerra mundial até a década de 1970, com mais de sessenta filmes com gatos fantasmas produzidos neste período, com destaque para A Mansão do Gato Preto (Nakagawa, 1958) e O Gato Preto (Shindo, 1968), ambos que seguem o tropo de uma violência que será motivo de uma vingança executada por um bakeneko.

Outro filme com essa mesma premissa e um dos primeiros dessa leva foi O Gato Fantasma e o Shamisen Misterioso (Ushihara, 1938), que conta a história de uma atriz de teatro apaixonada por um tocador de shamisen (instrumento de corda japonês) que por ciúme mata a bela aluna do músico e o gato de estimação dele, Kuro. Com isso, a moça e o bichano voltam para vingar suas mortes e assombrar a atriz. O bakeneko aqui aparece tanto possuindo a falecida, quanto com a cara de gato, em um efeito psicodélico de caleidoscópio. Vale o destaque de que o shamisen tinha, tradicionalmente, a caixa de ressonância revestida de couro de gato, para garantir um som melhor – hoje são usados materiais sintéticos, no entanto alguns mais clássicos ainda utilizam couro animal.

Bakeneko no filme O Gato Fantasma e o Shamisen Misterioso (1938)

Já um dos últimos filmes desse subgênero dos gatos fantasmas é o alucinante Hausu (Obayashi, 1977). Dessa vez, em um cenário contemporâneo, sete amigas vão passar as férias na casa de uma tia delas e são atacadas por diversos tipos de assombração. Entre elas está o bicho de estimação da tia, desta vez um gatinho de cor branca. Como o desgosto da tutora é advindo de traumas passados, desta vez o bakeneko não executa uma vingança pessoal e aparece na forma de bichano mesmo. Ele é tratado mais como um um observador mas, por vezes, agente do caos (talvez a verdadeira mente por trás dos ataques).

A partir da década de 1970 os kaibyos começam a aparecer menos no cinema de terror do Japão, dizem que porque o público não tinha mais medo desse tipo de entidade, e com isso são apresentados em tom de comédia. No entanto, esses gatinhos mágicos ainda são presentes em outros gêneros, especialmente em animes, um exemplo clássico de kaibyo sendo o “Catbus” de Meu Amigo Totoro (1988).

House 1997Kaibyo do filme Hausu (1977)