Tron: Ares é um ótimo exemplo para entender o que está acontecendo no mercado cinematográfico estadunidense nos últimos anos. A resposta curta é uma crise criativa em que as empresas querem apenas apostar no retorno fácil (com sequências, remakes, reboots e adaptações); a resposta longa é a crise generalizada do capitalismo tardio. Mas falando das especificidades deste filme, que é uma sequência de uma das primeiras “sequências legado” e ao mesmo tempo um soft reboot, deixando também  margem para uma continuidade do universo em uma das maiores empresas do ramo (e que ama um universo expandido), a Disney. Só faltava ser adaptação de jogo ou algo do tipo para fechar o bingo completo de produto “dinheiro rápido”, que apesar do orçamento na casa dos 180 milhões de dólares tem previsão positiva de arrecadação.

A história desse longa começa ainda na época que Tron: O Legado  era lançamento, em 2010, como uma sequência direta deste que iria seguir os personagens Sam Flynn (Garrett Hedlund), filho de Kevin Flynn (Jeff Bridges), o protagonista do primeiro Tron (Lisberger, 1982), e Quorra (Olivia Wilde) que era um tipo de programa que conseguiu vir para o mundo real – e interesse romântico do protagonista. O diretor estreante Joseph Kosinski, que viria a dirigir posteriormente uma das mais aclamadas “sequências legado”, Top Gun: Maverick (2022), ainda estava atrelado ao projeto e tinha escrito esboços de roteiro para o filme seguinte. No entanto, nada disso foi para frente e Tron: Ares. apesar de não negar os acontecimentos anteriores, traz um elenco inteiramente novo em um universo virtual bem mais simples do que o estabelecido em Tron: O Legado.

Ares (Jared Leto), assim como Quorra, é um programa com uma inteligência artificial avançada – mas não importam mais as diferenciações e hierarquias estabelecidas, ele agora é o “Master Control” do sistema criado por Julian Dillinger (Evan Peters), neto do antigo CEO da empresa ENCOM, Ed Dillinger (David Warner), e agora herdeiro da Dillinger Systems, criada pelo avô após os eventos do primeiro filme. A ENCOM, por sua vez, passou pelas mãos de Kevin e Sam Flynn, mas a atual CEO é Eve Kim (Greta Lee).

Com a competição entre as duas empresas pelo mercado de tecnologias (e jogos de videogame), Julian e Eve buscam um código, supostamente criado por Kevin Flynn, que permite a permanência de programas no mundo real. Neste ponto da trama, ambas as empresas já conseguem, com uma espécie de impressora 3D a laser gigante, trazer criações virtuais para a nossa realidade, só que por apenas 29 minutos. Eis que Ares é uma dessas criações e Julian pretende vendê-lo como um super soldado, porém o programa começa a ter sentimentos ao perceber a chuva, tocar um vagalume, desenvolver um gosto por Depeche Mode e se comover com a história de vida de Eve, a quem ele deve eliminar.

Essa temática sobre o que constitui o humano ou humanidade, a consciência da máquina e a ética de se usar essas coisas como aparato bélico já está presente desde a própria concepção da ficção científica e não dá nem para dizer que Tron: Ares aprofunda ou traz algum novo elemento para a discussão. Logo, as ações e objetivos do protagonista vão se desenrolar exatamente como o esperado: como em qualquer filme médio da Marvel. Por um lado, isso é frustrante por ser mais uma aventura genérica de alto custo; por outro, é uma vantagem sobre seu predecessor que falhou em tentar expandir o universo de um filme original que funcionava justamente pela simplicidade e pelo visual inovador. Essa inovação, aliás, é mantida no design, que apesar de seguir a lógica dos outros filmes ainda impressiona, mas não apresenta grandes inovações nas tecnologias de efeitos especiais – diferente do primeiro Tron sendo um dos primeiros a usar CGI e o segundo a utilizar o rejuvenescimento digital.

Dessa forma, com uma narrativa rasa e um visual admirável e bem estabelecido, o longa ainda consegue enganar por ter um elenco bem competente em personagens que, embora clichês, criam uma conexão com o espectador: Julian é um vilão muito inteligente, maníaco e obcecado, aos moldes do Lex Luthor de Nicholas Hoult, Eve é a heroína esperta, ética e capaz, que além de ter tanta habilidade quanto o vilão ainda pilota uma moto e Ares passa a ingenuidade encantadora desconectada de alguém que ainda está descobrindo a vida. Jared Leto, aliás, me surpreendeu nesse papel para o qual, a princípio, acho ele uma escolha questionável, visto que é um homem 50+ fazendo papel do “soldado ideal” criado por computador.

Outro aspecto que vale ser ressaltado é a trilha sonora. Assim como a de Tron: O Legado, assinada pelo duo Daft Punk, a de Tron: Ares também tem assinatura de artistas proeminentes da música eletrônica que é o Nine Inch Nails – que em sua formação atual também pode ser conhecido como a dupla Trent Reznor e Atticus Ross. E, da mesma forma que o filme de 2010, este longa também é extremamente dependente da trilha sonora para dar emoção, gravidade e principalmente empolgação para as cenas de ação, que funcionam muito com o uso dos veículos mas não tem a mesma fluidez nas lutas corpo a corpo.

No fim das contas, tenho sentimentos conflitantes sobre o filme. É claramente uma aventura genérica e vazia, aos moldes Marvel, que a Disney tenta enfiar goela abaixo dos incautos espectadores de cinema, mas por outro lado também acho “bem embalada” com visuais bonitos, atuações competentes e uma trilha sonora simplesmente espetacular. Tron: Ares parece aqueles dias em que bate um desejo aleatório de comer McDonald’s e nenhum outro lanche serve, é o ultraprocessado estadunidense que a gente aprendeu a gostar – hoje com moderação. PS: recomendo muito ouvir o álbum com a trilha sonora!