Estou muito feliz. Sou uma pessoa que gosta de heróis; gosto de ver a resiliência, a fragilidade, e de ver quando escolhem fazer o bem apesar de tudo. Superman é um desses: um personagem que poderia dominar o mundo à força, mas acha essa ideia repulsiva; ele quer cuidar de pessoas, de animais e até de monstros. Com uma certa ingenuidade, Clark Kent (David Corenswet) nunca escolhe a vingança ou a violência, mesmo que isso signifique levar uma surra. Ele é genuinamente fofo; o coração dessa história.
Para ressaltar as qualidades do herói é preciso um antagonista, e aí entra o Lex Luthor (Nicholas Hoult). Um homem tão inteligente quanto arrogante, que, talvez por inveja da atenção que os meta humanos recebem, escolhe usar sua mente brilhante unicamente em benefício próprio, custe o que custar. O problema é que, para satisfazer seus desejos maníacos por poder (e atenção), ele precisa eliminar os que passam por seu caminho; especialmente o pior deles: Superman. Os planos de Lex são extremamente bem estudados e executados (além de letais), mas ele sempre esquece, talvez pela falta de empatia, de colocar na equação que o herói não está sozinho: existe uma rede de apoio imensa, que vai desde seus pais, passando por robôs, por amigos e colegas de trabalho, até os companheiros de profissão e superpoderes. Ah! E o cãozinho Krypto, que é essencial em diversos momentos. Cada um dos vários personagens que rodeiam o herói tem sua função e personalidade distinta que, no fim das contas, juntos combatem a mentalidade individualista do bilionário.
Sem se preocupar em contar novamente a origem do Superman (e dos personagens que o rodeiam) em cada mínimo detalhe ou estabelecer o início de uma série, James Gunn constrói um mundo colorido muito remanescente dos quadrinhos e das histórias mais esperançosas do super-herói. Ao mesmo tempo, o diretor toca em temas políticos atuais, seja nas analogias bem óbvias às guerras e genocídios em curso no planeta (em especial o genocídio palestino), na questão da imigração, ou no discurso sobre manipulação da opinião pública.
Sobre isso é interessante perceber que o herói começa sendo interventor em um conflito internacional, tal qual os EUA, a fim de buscar a paz, mas sem pensar nas consequências de suas atitudes no cenário mundial – que são questionadas por Lois Lane (Rachel Brosnahan). É uma abordagem que me lembro de ver poucas vezes em filmes de herói, como em X-Men Primeira Classe (Matthew Vaughn, 2011) ou Capitão América: Guerra Civil (irmãos Russo, 2016), e, com certeza, em nenhum desses dois exemplos ficou tão claro quem estava errado. No fim das contas, Superman é um imigrante também.
O filme, no entanto, não é sisudo; pelo contrário: é muito bem humorado. A comédia física é bem presente nas cenas de ação, como no combate entre Superman, a Gangue da Justiça e o alienígena gigante. Está presente também nas expressões do caótico Krypto. Tem também o sarcasmo da Lois Lane e do Senhor Incrível (Edi Gathegi), as situações toscas em que Jimmy Olsen (Skyler Gisondo) se envolve e os comentários espertinhos do Lanterna Verde (Nathan Fillion) para trazer mais leveza ainda. O coração fica quentinho quando os Kent entram em cena; nos momentos de intimidade entre Lois e Clark, e até mesmo na fidelidade do cãozinho Krypto. A sinceridade com a qual a narrativa é desenvolvida é essencial para que o público crie empatia pelos personagens; as conexões são autênticas, e os momentos de carinho e amizade não são tratados com ironia ou como uma piada espertinha, é um filme que permite vulnerabilidade.
A coletividade é levada à sério em contraste ao individualismo de Lex Luthor, que, por ser tão egocêntrico e megalomaníaco, não consegue perceber sinais de que as coisas não estão acontecendo exatamente como ele espera. O vilão, inclusive, é brilhantemente construído também para refletir um momento em que bilionários (supostamente) carismáticos acreditam que têm o mundo nas mãos. Ele não é cômico ou alguém que se deve almejar ser: Lex é só bem patético mesmo.
É uma aventura extremamente bem sucedida em tudo o que propõe; com momentos emocionantes, humor bem encaixado e engraçado, embates grandiosos e personagens cativantes. A sensação é de ir a uma biblioteca e ler uma revistinha qualquer do Superman, com a trilha sonora emblemática de John Williams tocando no fone de ouvido.