Escrito e dirigido por Felipe Sholl, Ruas da Glória (2025) conta a história de um professor de literatura recifense que se muda para o bairro da Glória, no Rio de Janeiro, e conhece um garoto de programa na noite queer que vira sua obsessão. Sholl conta que a inspiração para o filme veio de sua experiência pessoal quando era um carioca que havia recém mudado para São Paulo, vivenciando a realidade das drogas e da prostituição no meio gay da cidade, enquanto passava pelo luto da morte de seu pai.
No filme, o luto do protagonista, Gabriel (Caio Macedo), é por sua avó, que logo entendemos que era a única da família com quem ele tinha um vínculo afetivo. Essa afeição é mostrada através de vídeos que Gabriel faz com o celular, mostrando a vista de sua janela no apartamento da Glória, as ruas da cidade durante a noite, enquanto fala com sua avó, como se os vídeos fossem mensagens que ele pretende enviar. O restante da família é apenas mencionado por mensagens de voz em que o pai de Gabriel menospreza sua decisão de se mudar de Recife e expõe o descontentamento de todos por ele ter levado consigo as cinzas da avó.
Em meio a essa atmosfera de solidão, é fácil entender o que leva Gabriel a mergulhar na noite até se afogar. Começa com o desejo natural de encontrar sua comunidade nesse novo lugar, que acontece quando se depara com o Bar da Glória, casa noturna cuja dona é a belíssima e enigmática Mônica (Diva Menner), uma mulher trans negra, que logo acolhe o peixe fora d’água, juntamente de seu grupinho composto por dois homens queer e outra mulher trans. Gabriel, porém, fica mais interessado em ir atrás de um garoto de programa que frequenta o local, Adriano (Alejandro Claveaux), imigrante uruguaio cujo passado e vida pessoal é um mistério para todos.
A química sexual entre os dois é instantânea e avassaladora, demonstrada em longas cenas de sexo que escolhem focar mais nos rostos dos atores do que em seus corpos; embaladas pelos sons de suas respirações, que traz uma verossimilhança cru da realidade. A paixão entre os dois é movida a tesão e cocaína. Adriano é impulsivo e inconsequente, e tira Gabriel de sua zona de conforto de menino de família rica para experimentar a vida na prostituição.
Esse mundo que, a princípio, causa medo em Gabriel, acaba virando seu espaço de auto-descoberta e auto-destruição. Tudo se intensifica quando Adriano desaparece de repente de todos os lugares que frequentava, deixando todos os seus pertences para trás, sem dar notícia ou deixar qualquer aviso. Em meio à sua obsessão por encontrá-lo, Gabriel acaba indo ao apartamento onde ele morava, em um prédio onde é sabido que todos os inquilinos fazem programa. Ele decide morar ali, junto das roupas de Adriano ainda no armário, dos registros no aparelho de celular que também foi deixado pra trás, dormindo na cama que ainda tem cheiro de sexo. A vida de Gabriel acaba se mesclando à desse fantasma, dessa fantasia que é Adriano para ele.
O filme se destaca pela maneira como as interações entre os atores parece natural – desde as mais mundanas e sutis até as mais intensas. É fácil para o espectador se imergir na paixão e na obsessão do protagonista quando há tanto espaço para a fisicalidade dos atores.
O ponto fraco, a meu ver, fica na mensagem que ele tenta passar de maneira desconjuntada no final, de que Gabriel, após cortar relações com sua família de sangue do Recife, agora encontrou uma nova família com seus amigos do Bar da Glória. O Bar da Glória, Mônica e seu grupo, são colocados como um contraponto à maneira como Adriano vive. Por mais que também vivam de drogas (dessa vez maconha, e não cocaína) e prostituição, eles são uma comunidade que acolhe uns aos outros, diferente do garoto de programa que se isola. No entanto, isso tudo fica mais na intenção do que na execução, pois quase todas as interações que o grupo tem com Gabriel acaba parecendo muito superficial – mesmo tendo uma cena de sexo grupal. Como princípio, eu também concordo que maconha e poliamor é bem mais saudável que cocaína e relacionamento tóxico, mas falta ali demonstrações de amizade e afeição sincera que passe a ideia de família que o filme queria passar. Mesmo em uma cena forte em que Gabriel, transtornado com a realidade cruel dos garotos de programa, procura Mônica em uma festa (onde, por algum motivo, ela está cantando a famosa ária Nessum Dorma), e se ajoelha diante dela dizendo que não quer morrer, não fica claro de onde vem a compaixão dela por ele; acaba entrando em um clichê de colocar mulheres numa posição de mãe. No caso das mulheres trans, é como se o único papel relevante delas na comunidade LGBTQIAPN+ fosse o de ser “mother of the house” acolhendo os pobres meninos gays (no caso, um branco, de família rica, que tem um emprego formal).
Talvez essa exploração da solidão e do isolamento trazida pelo filme, que leva à pulsão de morte, pedisse uma narrativa mais cruel, quiçá um final trágico. Felipe Sholl soube trazer muito bem à tela a crueza da prostituição e do sexo, mas a conclusão não foi orgásmica como o restante da trama. É compreensível, no entanto, a necessidade de tentar trazer uma mensagem inegavelmente positiva nesse tipo de história nos dias de hoje, ainda mais se tratando de algo inspirado por experiências pessoais.
Apesar disso, Ruas da Glória (Sholl, 2025) continua sendo um filme excelente, que eu recomendaria especialmente para aqueles que, como eu, amaram Baby (Caetano, 2024) e Ato Noturno (Matzembacher e Reolon, 2025). É mais uma prova de que o cinema queer brasileiro dá uma aula de tesão pros gringos. E dá tesão de ver nosso cinema tendo cada vez mais espaço!