O thriller erótico é um subgênero que ganhou popularidade no cinema em meados da década de 1980 e teve seu auge na década seguinte, com precursores como Vestida para Matar (DePalma, 1980) e clássicos como Instinto Selvagem (Verhoeven, 1992). Esses filmes costumam misturar elementos do film noir: noite, elegância, romance, sedução, perigo, crimes – com nudez, sexo, fetiches e erotismo. O sucesso do thriller erótico costuma ser atribuído ao surgimento do home vídeo, que expandiu uma demanda por filmes de médio orçamento e com censura R (o equivalente no Brasil a 18 anos), e também ao medo da AIDS, pois o sexo tornou-se algo temeroso e com consequências nefastas. O elemento queer desses filmes citados, aliás, vale ser destacado, já que muitas vezes é utilizado como o ponto de conflito, mistério e perigo dentro da relação.

No século XXI, porém, esse subgênero caiu em desuso no mainstream audiovisual, tanto pelas mudanças no mercado cinematográfico, como também pela facilidade do acesso à pornografia e o consequente aumento da influência de “valores cristãos” na cultura ocidental – hoje há ainda o agravante da pudicícia do jovem que não quer assistir cenas de sexo “desnecessárias”. No entanto, o thriller erótico nunca deixou de existir, especialmente na Europa e Ásia, com representantes famosos como A Criada (Park, 2016), e o romance erótico vai muito bem no universo das séries.

Nessa corrente de possível retomada do subgênero no cinema está o brasileiro Ato Noturno. Aqui Matias (Gabriel Faryas) é um ator abertamente gay em ascensão, que marca um encontro por aplicativo com Rafael (Cirillo Luna), um homem misterioso de início, pois esconde publicamente sua sexualidade por ser um político em plena campanha para a prefeitura. Os dois logo começam um romance tórrido, com um gosto pela adrenalina de poderem ser pegos a qualquer momento.

A noite de Porto Alegre, com suas luzes coloridas ou à meia luz dos postes, é o cenário ideal para os encontros em prédios públicos vazios, estacionamentos isolados, parques centrais e baladas gays – locais onde o perigo aumenta o tesão dos dois. Essa tensão vai permear toda a narrativa, enfatizada pelo uso do zoom lento ou, do oposto, whip zoom (quando rapidamente foca em algum objeto ou pessoa), sempre dando a sensação de que o casal está sendo observado.

Por outro lado, ao mesmo tempo em que o suspense prende a atenção, o romance é também essencial para a trama e, neste filme, ressalta algumas questões sobre masculinidade e homossexualidade. Mesmo em uma sociedade na qual é permitido até o casamento entre pessoas de mesmo gênero, ainda é necessário evitar ser publicamente homossexual quando se almeja um espaço essencialmente heterossexual, como a política. Mas além disso, também é preciso que não haja qualquer traço de feminilidade em um ator gay, inclusive também mantendo sua sexualidade em sigilo, para que este consiga fazer papéis de homens héteros. Portanto, parte da vontade do casal de ser descoberto é também se desprender dessa obrigação de ter que esconder para o mundo quem eles assumidamente são. Dessa forma, fica muito fácil torcer pelos dois, que também têm uma química excelente, e assim sentir a angústia aumentar sempre que a felicidade deles é ameaçada.

Ato Noturno vem numa época em que urge a necessidade de um cinema com paixão e tesão, que busque o erótico como fantasia, mas também desafie normas sociais e desperte o apetite pela vida. Chega de apatia, especialmente em histórias de romance.