É irônico como o epílogo extremamente cafona de O Brutalista, novo filme de Brady Corbet, termina destacando uma citação do personagem-título fictício László Tóth (Adrien Brody): “Não importa o que os outros tentem lhe vender, o que importa é o destino, não a jornada.” Um filme de 3 horas e meia que insiste, desde sua abertura, em replicar os grandes épicos americanos de outrora terminar afirmando que a jornada não importa é de um cinismo bem particular. E justamente por isso, me permiti interpretar que o tal “destino” da frase acima não se refere ao desfecho dessa história, mas sim ao prestígio e à aclamação que Corbet e seu novo filme passaram a receber depois de algumas vitórias em festivais.
O que temos aqui é uma casca de épico pomposo e sisudo que, ao longo de sua duração, se revela frágil, ornamental, puramente cosmética e autoindulgente. Não à toa, ao final da exaustiva sessão, fiquei me questionando: por cargas d’água, qual é o ponto dessa história? Qual é sua ideia? E ao reparar vários vícios e emulações arquetípicas desse tipo de filme – que agrada o público norte-americano desde os primeiros longas-metragens, antes mesmo do cinema falado –, não pude deixar de ter a impressão de que o ponto sempre foi o de alcançar facilmente o status de obra genial, grandiosa e densa do ano de 2024.
Arquiteto talentoso formado na Bauhaus que migra da Hungria para os Estados Unidos após sobreviver ao Holocausto, Tóth começa a trabalhar na loja de móveis de seu primo na Pensilvânia até receber uma oferta megalomaníaca do industrialista Harry Lee Van Buren (Guy Pearce): construir um centro comunitário gigantesco em homenagem à memória de sua recém-falecida mãe. Assim como Anora (Baker, 2024), O Brutalista assume essa jornada da queda do “sonho americano” a partir de um pária, um imigrante que tenta construir uma nova vida na “terra das oportunidades” – a cena do pôster, da Estátua da Liberdade de ponta-cabeça, é um simbolismo bem óbvio disso.
Porém, o que se segue depois dessa abertura minimamente interessante é uma obra que parece se contentar com uma decupagem dura, quadrada, que muitas vezes lembra a de uma série de TV pretensiosa, ao se basear em longos diálogos que abraçam a lógica simplória do “plano-contraplano”, tornando a experiência enfadonha, entediante e (o pior) desinteressante. Como disse meu colega de cabines Lucca Leal em seu comentário no Letterboxd, podemos até pensar que tal rigidez formal de Corbet serve para construir um diálogo com o estilo arquitetônico de seu protagonista, mas isso logo cai por terra quando o filme entra em sua segunda metade.
Marcada pela inserção da personagem de Felicity Jones (interpretando aqui a esposa enferma de Tóth), a segunda parte do longa é onde Corbet parece compilar suas mais infelizes escolhas. Aparentando resolver aquele problema da rigidez da linguagem e apelando, nesse miolo, para algo que remete mais aos grandes épicos com planos abertos, cenografia vasta e até mesmo uma abordagem melodramática mais assumida na relação entre Tóth e sua esposa Erzsébet, não demora muito para que Corbet perca a mão de sua condução, tornando os personagens já unidimensionais em plenas caricaturas. Com exceção do protagonista (sustentado pela sempre segura performance de Brody), todos os habitantes dessa narrativa se tornam cada vez mais um esboço de uma ideia mal-acabada. Guy Pearce encarna a figura do bilionário inescrupuloso que, com seu bigodinho e sua expressão sempre estoica e maquiavélica, não se distancia tanto de um vilão de quadrinhos – e certa cena de estupro que envolve o personagem é um dos momentos mais inexplicáveis do cinema em 2024. Enquanto isso, Jones é completamente relegada à mulher que sofre de fundo justamente para mover a jornada de seu marido de forma apelativa e abrupta.
Todas as aberturas minimamente interessantes que o filme cria são sabotadas justamente por um final que, ironicamente conectado à frase que iniciou este texto, parece não ter um destino, não ter um fim. A não ser que… esse fim seja extra-filme, como eu já havia dito. Há um oportunismo bem perceptível de Corbet ao inserir discursos que, no contexto atual, podem ser enxergados como sionistas. Mais importante que o contexto retratado pelo filme é o contexto em que ele é lançado ao mundo. E isso por si só não seria o suficiente para fazer do longa uma obra ruim. Porém, quando conectamos tal contexto à forma apelativa e sensacionalista como o diretor escolhe mostrar o sofrimento dos judeus na América, soa mais como um discurso em forma de imagens, que não estabelece nenhuma conexão emocional com o espectador, mas garante vaga nas grandes premiações como uma obra culturalmente relevante, mesmo que formalmente não tenha cacife nenhum para tal status.
Dito isso, O Brutalista consegue a proeza de ser uma das obras mais medíocres, desinteressantes e autoindulgentes a serem iluminadas pelas grandes premiações. É um simulacro de épico americano da Nova Hollywood, que tenta vender mais uma vez a ideia do “verdadeiro cinema” analógico e idealizado que Hollywood tanto adora, ainda mais em tempos de clara crise industrial em seu próprio quintal. Uma brincadeira imatura de um cineasta que realmente não consegue sustentar suas próprias ambições cinematográficas e oferece um pastel de vento com uma massa ornamentada para passar uma imagem gourmetizada. Uma grande… Digo, uma enorme decepção!