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Ao assistir ao novo longa de Sean Baker, certo momento despretensioso me chamou muito a atenção. Eufórica com uma nova perspectiva de vida originada de seu casamento afobado com o filho de um oligarca russo, a personagem-título demonstra, para uma colega da boate de striptease onde trabalha, a esperança de poder ir aos parques da Disney, como sonhava em sua infância. Como um grande admirador da obra do cineasta, não pude evitar ser transportado para sua obra-prima, Projeto Flórida (2017), na qual acompanhamos crianças travessas e sem muitas perspectivas de vida morando em apartamentos mequetrefes bem do ladinho da Disneylândia, em Orlando.
E o pensamento de que a personagem Anora (Mikey Madison) poderia ser, no passado, uma dessas crianças, fez-me ficar ainda mais encantado com a consistência da filmografia desse que já é um dos melhores autores de sua geração. Porém, essa realização traz também um choque de realidade. Se por um lado, o filme Anora consegue ser divertido e engraçado em quase toda sua duração, por outro, não é difícil perceber como Baker cria uma camada melancólica subjacente à jornada da protagonista, sobretudo, a partir do conflito de classes e gêneros, camada essa que invade a última cena sem a menor cerimônia para fazer com que o filme se feche com uma pancada no estômago. Isso, por sinal, é algo que compartilha com seu “irmão espiritual” de 2017.
Baker nos surpreende o tempo todo com as direções pelas quais leva seu conto de fadas torto. A primeira meia-hora, que mostra o início do relacionamento da protagonista (Ani, como prefere ser chamada) com o imaturo Vanya (Mark Eydelshteyn) é preenchida, quase em sua totalidade, por cenas sensuais protagonizadas por Madison e festas caóticas dadas pelo jovem russo, uma idealização da vida privilegiada aos olhos de uma mulher que nunca parece ter tido muitas chances reais de felicidade. Até o filme quebrar essa idealização e nos apresentar a uma situação inusitada que faz Ani lutar por essas novas chances que apareceram por meio de seu trabalho relativamente humilhante.
É aqui, no que podemos chamar de um enorme “segundo ato”, que Anora brilha muito em seu teor cômico, usando muito do humor físico e de costumes para um jogo de gato-e-rato divertidíssimo, onde Madison surpreende não só em sua fisicalidade caótica (como já havia demonstrado em Era uma Vez em Hollywood e Pânico) como também em seu linguajar, com um timing impecável. Adicionado a isso, há toda uma nova gama de personagens impagáveis a partir daí que servem tanto para a potencialização desse humor quanto para a reafirmação das discussões que Baker busca fazer com seu novo projeto. Destaco, em especial, os personagens de Karren Karagulian e Yura Borisov, esse último que também participa do desenlace final da jornada de Ani.
Existe um motivo para nós, críticos e cinéfilos, defendermos que precisamos ver o filme por completo para tecer alguma opinião sobre sua ideia. O filme é uma unidade artística e, portanto, só deixará claro seu real ponto em sua reta final. E Anora é, provavelmente, o principal exemplar dessa situação em 2024. Quando as confusões de suas tentativas de recuperar essa perspectiva de vida mágica, seu destino com o “príncipe encantado”, falham, Baker transforma aquela camada de melancolia subjacente no tom central dessa história, como a desilusão de que o “felizes para sempre” não existe em um mundo onde a elite usa a “ralé” como brinquedos que quebram e podem ser trocados por outros. Dinâmica parecida com aquela entre homens e mulheres.
Talvez até por isso que Baker tenha escolhido subverter o padrão de seus filmes anteriores e fazer desse longa um filme de inverno, com a neve e o tempo cinzento quase onipresentes em todas as cenas externas. Se em seus outros filmes, os personagens eram impactados por ações passionais, próprias ou alheias, nesse a personagem Anora parece vítima de uma frieza e desumanização constante, desde seu trabalho como stripper (e prostituta, como adicional) até a negligência e abandono que sofre por parte de Vanya. Seu sonho se parte diante de seus olhos e tudo o que resta é retornar ao seu estado inicial, humilhante.
O que nos leva à última cena, que pode determinar para muita gente a impressão geral da obra. Eu mesmo não sabia o que pensar daquele último momento entre Ani e Igor logo de cara. Mas, pouco tempo depois, pensando na jornada hilária de Anora, aquela explosão na forma de um choro doloroso se tornou extremamente impactante. A gata borralheira, que acreditou brevemente que poderia ser realmente amada, já não confia mais no amor verdadeiro e desabafa com um amigo improvável, esse que parece amá-la. Mas como ter certeza?
O destino de Anora, então, fica incerto. Ela aceitará esse novo amor aparentemente verdadeiro, correndo o risco de ter seu coração partido mais uma vez? No mundo de Baker, princesas instantâneas que se tornam felizes por um passe de mágica não existem. E pensar que uma daquelas garotinhas de Projeto Flórida poderia ter esse destino e jamais poder realizar seu sonho de ir para a Disney é uma noção que torna Anora, um dos filmes mais divertidos do ano, em um de seus mais tristes também.