Em 16 de julho de 1991, às 23 horas, o documentário Línguas Desatadas, dirigido por Marlon Riggs, estreia na série POV (Point of View) do canal público estadunidense PBS (Public Broadcast Station) e em mais 29 das 50 afiliadas. O filme de 55 minutos, lançado originalmente em outubro de 1989 no festival do American Film Institute, já havia sido exibido e premiado em diversos festivais e exibições privadas, porém era a primeira vez que um documentário explicitamente gay e negro era transmitido nacionalmente na TV aberta dos EUA – mesmo com boicote de quase metade dos canais locais e tentativas de censura por parte de grupos religiosos (e a favor da família e dos bons costumes), alegando, principalmente, pornografia e linguagem obscena.

O feito de Línguas Desatadas é um marco para o ativismo interseccional queer e negro, não somente pelo pioneirismo de ser o primeiro documentário produzido por um homem gay e negro a ter exibição nacional nos EUA, mas também por trazer para o debate a homofobia da comunidade negra, o racismo dos gays brancos e a devastação provocada pela aids naquela comunidade. Além disso, o filme chama para a ação, propondo como o ato mais revolucionário: homens negros que amam homens negros.

Quando começou a produção de Línguas Desatadas, Marlon Riggs já tinha terminado sua formação em história na universidade de Harvard e o mestrado em jornalismo, com especialização em documentário, na universidade de Berkeley, onde era professor e trabalhava na produção de diversos documentários independentes dos mais variados assuntos. Como diretor, já tinha finalizado o filme que foi parte da dissertação (sobre o blues na cidade de Oakland), e também o primeiro documentário como diretor independente, Ethnic Notions (1987), no qual falava sobre a representatividade e os estereótipos de pessoas negras na cultura norte-americana na virada entre os séculos XIX e XX. Foi neste período também que ele recebeu o diagnóstico de HIV positivo.

Talvez seja impossível falar da vida de pessoas queer, em especial de homens gays, nas décadas de 1980 e 1990 sem mencionar a epidemia de aids. O HIV é um vírus com duas variações, que surgiu a partir da mutação de um outro vírus similar presente em símios da África Central. O primeiro caso confirmado da presença dele em humanos ocorreu onde é hoje a República Democrática do Congo, em um homem, no ano de 1959. Acredita-se que a doença tenha chegado às Américas pelo Haiti, devido à grande quantidade de trabalhadores haitianos que atuavam nas regiões africanas em que o HIV já estava presente. Nas décadas de 1960-70, pacientes (inclusive crianças) em diversos países apresentaram doenças posteriormente associadas à aids, como tipos específicos de pneumonia e o sarcoma de kaposi – aquelas lesões de pele avermelhadas ou arroxeadas que ficaram conhecidas como um sinal claro da doença – porém ainda não havia a correlação com o vírus HIV.

Foi apenas em 1981, nos Estados Unidos, que a doença foi identificada por Sandy Ford, no Centros de Controle e Prevenção de Doenças, quando ela achou curioso a presença, em um grupo de pacientes homens gays, as duas doenças mencionadas, pneumocistose e sarcoma de kaposi. Em 1982 o que antes chamavam de GRID (gay-related immune deficiency) foi modificado para AIDS (acquired immune deficiency syndrome), quando ficou óbvio que não afetava apenas homossexuais, mas o vírus HIV só seria identificado anos depois, em 1986. Vale ressaltar aqui a diferença entre ter a doença (aids) e ser portador do vírus (HIV):  hoje sabemos que, sem tratamento, portadores do vírus desenvolvem aids em cerca de 8 a 12 anos, mas do contrário um portador de HIV pode não desenvolver a doença e ter uma carga viral não transmissível, apesar de ainda não haver uma cura.

As informações oficiais eram erráticas e não eram amplamente divulgadas para a população, tanto por um preconceito sobre quem, supostamente, poderia pegar a doença – que chamavam de 4H (homossexuais, hemofílicos, haitianos e usuários de heroína) – quanto para não causar pânico na população “de bem”. Portanto, desde o início, a comunidade LGBT+ tomou para si a responsabilidade de espalhar o máximo possível as informações sobre transmissão, prevenção e cuidados, bem como protestar contra a negligência do governo dos EUA (encabeçado por Ronald Reagan) para com os infectados.

O documentário Línguas Desatadas surge neste contexto, e tangencia tanto o movimento que promovia a produção de vídeos-denúncia sobre a aids, quanto faz parte do que foi designado posteriormente como o Novo Cinema Queer – que uniu essa revolta a uma produção artística que devolve a voz e o protagonismo a essas pessoas (desata línguas). O próprio Riggs questiona o que seria considerado realmente “cinema”, nesse caso, se era o meio (toda sua obra foi feita em vídeo) ou a forma “clássica” e genérica, sendo que para ele e outros diretores como ele, a motivação era justamente romper com essa estética e convenções; ser subversivo e desfiar expectativas.

Entre as pessoas negras dos Estados Unidos acreditava-se que a aids não era uma questão, visto que a maior parte dos pacientes diagnosticados eram brancos. Existia também um medo intrínseco de violência médica, além dos custos altos de tratamento e medicação. Ademais, homens negros tem como pressuposto performar o estereótipo do “machão”, e por isso muitos não eram assumidos e não poderiam viver com o estigma se fossem portadores de HIV. Dessa forma, a existência da aids nessa população era subdiagnosticada. Portanto, Marlon Riggs aparecer na tela da TV falando que é um homem negro, gay e com aids já é em si algo muito poderoso.

Entretanto, o documentário vai além: rememora a história e a vivência interseccional. Como o título sugere, o desatar da língua, a fala, é o que liberta; é a aceitação da própria identidade, enquanto o silêncio reprime e se torna uma fúria permanente e incontrolável. Essa fala está na forma de poesia, escrita pelo diretor e pelo poeta Essex Hemphill, que também aparece em vídeo, além de canções de Roberta Flack, Sylvester, Billie Holiday e Nina Simone. Riggs faz questão de incluir a participação de diversos artistas, seja de maneira visual, como no cartaz de Looking for Langston (Julien, 1989), outro filme seminal para a representação e manutenção da memória de pessoas negras e queer. Isso entrecortado com encenações de afeto ou violência verbal, imagens de protestos, notícias e até trechos de um stand up homofóbico do Eddie Murphy.

Riggs usa as batidas do coração, que ainda pulsa, entre os relatos pessoais dele e de outros personagens, olhando diretamente para nós, como evidências, documentos históricos dessas experiências indissociáveis de homens negros e gays – marcados toda a vida por xingamentos sobre raça ou sexualidade. Ressalta a ironia de ser acolhido por brancos gays, quando excluídos por negros heterossexuais, mas ao mesmo tempo como seus corpos são assimilados e fetichizados: de uma hipermasculinidade pornográfica até a prostituição dos mais afeminados.

A proposta final do documentário é a cumplicidade, afeto, cuidado e amor dentro da comunidade negra e queer, “tribos de guerreiros e foras da lei” – com a cultura Ballroom servindo de exemplo ilustrativo, um ano antes do aclamado Paris is Burning (Levingston, 1990), e imagens de um casal se beijando e fazendo carinho. É lembrar dos que vieram antes e direcionar a raiva intrínseca por todas as injustiças para um propósito comum. Para isso, Riggs coloca um tutorial de “snap”, um estalar de dedos que serve como ponto de exclamação, uma autoafirmação, uma maneira de dizer “tô nem aí”.

Marlon Riggs sabia que ele tinha uma sentença de morte, uma bomba relógio, como ele mesmo diz no filme e, por isso, faz questão de deixar seu legado vivo. O diretor viria a completar mais quatro filmes, mas seu último trabalho, sobre as múltiplas identidades afro-americanas, foi terminado postumamente por sua equipe. Marlon Riggs faleceu em 1994, por doenças relacionadas à aids, mas sua voz permanece imortal.