Uma forte aproximação com a vida da comunidade LGBT+ dos anos 80 é o que se sente através do segmento documental dessas pessoas. Falam de seus medos, desejos, sonhos e vivências englobadas nas baladas e bailes de drag queens bastante ocultos e extravagantes.
A maneira como o filme fala do preconceito e da discriminação diária que sofrem e resistem contra são feitas de formas honestas e bem fortes, visto que elas se baseiam nas experiências dos próprios indivíduos que passam pela mesma situação. Isso mostra o caráter que torna esse filme único: como a LGBTfobia e a repressão a essa comunidade não são coisas naturais, como qualquer tipo de preconceito.
Pelo contrário, ele é construído socialmente como forma de solidificar uma “normalidade” na estrutura social vigente para atender a determinados interesses que não são nossos, e que perpetua a opressão de diversas formas, para colocar as minorias sociais no seu devido lugar, assim como o racismo, a misoginia, o capacitismo, sinofobia e etc. Os relatos das drag queens e travestis do filme expõem o lado político da temática LGBT+, como ocorre quando elas se imaginam vivendo uma vida luxuosa e confortável no mundo exterior, realizadas e em paz de diversas formas, em posições na sociedade que são exclusivas de homens e mulheres cisgênero e brancas.
Se torna uma obra ainda mais intimista por se tratar de um documentário feito na década de 80/90, época na qual a LGBTfobia era efervescente na sociedade, muito por conta da epidemia da AIDS, que assombrou aquela geração, e quando muitos tiveram seus dias contados por conta do espalhamento do vírus e pelo ódio e humilhação que recebiam das pessoas que chamavam o vírus de “câncer gay”. Portanto, se já é uma obra corajosa para os dias atuais, ganha ainda mais valor pela época de lançamento, ao mostrar que o público LGBT+ também são pessoas, e devem ser tratadas como tal.