Apesar de ótimos números de bilheteria, a franquia Jurassic World nunca conseguiu ser tão querida e relembrada quanto Jurassic Park. Como o título sugere e o marketing pesado quis ressaltar, este Jurassic World: Recomeço pretendia fazer o que Jurassic World: Domínio (Trevorrow, 2022) tentou e não conseguiu muito bem: unir os dois universos de dinossauros. Enquanto o filme de 2022 apostou em trazer os rostos conhecidos de ambos, a mais nova aposta é contar com um grupo completamente novo de personagens, sendo o primeiro longa a não ter ninguém de Jurassic Park (Spielberg, 1993) retornando à frente das telas. Nos bastidores, porém, David Koepp repete seu papel de roteirista pela primeira vez desde O Mundo Perdido – Jurassic Park (Spielberg, 1995). Isso deu a legitimidade necessária para a propaganda dizer que este é uma homenagem aos filmes dirigidos por Steven Spielberg, ao mesmo tempo que mantém a linha cronológica já estabelecida por todos os seis predecessores e também serve como reboot do grupo de humanos que vai interagir com os bichos pré-históricos.
A premissa de que o mundo está cansado de dinossauros, que é dita no primeiro Jurassic World (trevorrow, 2015), é mantida nesta continuação. A essa altura os animais criados em laboratório não se adaptaram ao clima contemporâneo e por isso os que sobraram estão contidos em algumas regiões próximas à linha do Equador, onde estavam as ilhas dos filmes originais também. Estes locais têm acesso restrito, sendo proibida a entrada de humanos. O recurso de recuar na construção de mundo, voltar para um escopo mais contido que, assim, facilita aos roteiristas imaginar as implicações e consequências dentro desse cenário de fantasia, me lembrou muito o recém lançado Extermínio: A Evolução (Boyle, 2025). Ambos retomam a história para um local semelhante ao primeiro, mantêm a cronologia, mas criam um novo fio narrativo com novos personagens.
A ideia de homenagem aos Jurassic Park está lá também – tem a faixa “Quando os dinossauros dominavam a Terra” e tem menção ao Dr. Alan Grant, por exemplo – no entanto se assemelha muito mais à franquia “World” mesmo. A primeira sequência do filme mostra um laboratório da InGen criando dinossauros híbridos, que foram apresentados pela primeira vez no Jurassic World como uma maneira do parque renovar o interesse perdido pelos dinossauros, e, como esperado, o experimento dá errado e todos os cientistas devem evacuar o local quando um híbrido consegue fugir. Essa premissa de que as pessoas não gostam mais dos bichos é mantida, inclusive com o museu onde trabalha Dr. Henry Loomis (Jonathan Bailey) fechando por falta de público. Além disso, a motivação para o encontro de humanos com os dinossauros vem novamente de um ganancioso dono de uma empresa farmacêutica (Rupert Friend), como em Domínio, que junta uma equipe para recolher sangue de grandes animais pré-históricos para criar um medicamento para doenças do coração.
O magnata recruta, além do paleontólogo, Dr Loomis, uma equipe de agentes especializados em operações secretas liderada por Zora Bennett (Scarlett Johansson) e Duncan Kincaid (Mahershala Ali). O filme então tira um tempo valioso, principalmente durante a viagem de barco até o local proibido onde estão os dinossauros, para que os personagens se conheçam, para estabelecer as habilidades de cada um e assim criar empatia por eles, para além do carisma e talento dos intérpretes. O grande problema é que a partir deste momento, a narrativa apresenta uma “side quest” em que uma família, constituída por pai, duas filhas e o namorado da mais velha, sofre um ataque de mosassauro e fica à deriva no mar. Eles então são resgatados pela equipe de agentes e agora aparentemente serão acompanhantes na missão sangue de dinossauro. Só que não. Logo imprevistos ocorrem e os dois grupos se separam em uma ilha cheia de bichos. A partir daí a narrativa se divide entre a jornada principal de conseguir material para os medicamentos e de pura sobrevivência da família, com ambas as partes sabendo que devem chegar a uma vila onde ainda há energia e um heliporto para um possível resgate.
Com essa bagunça toda surgem dois filmes paralelos de aventura na selva e, finalmente, os dinossauros aparecem de verdade. O vai e vem de cortes não chega a quebrar o ritmo do filme, mas cria uma sensação de fases de um jogo de videogame em que, em cada uma, aparece um bicho diferente. Alguns desses já são conhecidos, como os Espinossauros e os T-Rex, mas aqui suas aparições conseguem ser bem diferentes do que já foi feito, envolvendo menos corrida e mais natação, por exemplo. Outros são novidade, como os Titanossauros, apesar da cena ser, de certa forma, mais uma homenagem ao avistamento de sauropodes no primeiro filme – meu momento favorito do filme, aliás, por conseguir captar novamente a sensação de como seria fantástico ver esses animais.
Por outro lado, o longa parece realmente acreditar na ideia de que as pessoas não se interessam por dinossauros (para além dessa característica do mundo fictício criado no universo dos filmes) e insiste em trazer monstros para assustar os incautos. Dessa forma, em vez dos tradicionais Velociraptors, temos híbridos alados destes, e também o D-Rex, dinossauro híbrido do início, que parece um Xenomorfo com corpo de Goro (horroroso), como as ameaças principais. Isso é uma pena, pois, não somente é ineficaz em capturar a tensão da caçada dos raptores na cozinha de Jurassic Park (ou até dos pterossauros na ponte de Jurassic Park III), como também perde a oportunidade de trazer novos bichos pré-históricos para o cinema e, consequentemente, para o imaginário popular acerca deles.
Como na maioria dos filmes de monstro, os humanos são lanche e não importam muito, mas, quando são bem desenvolvidos, a história fica mais envolvente. Isso acontece no grupo de agentes, mas não no núcleo da família, que acredito que exista apenas para ter novamente a visão de uma criança sobre aqueles animais. Assim, apesar de bons encontros com os dinossauros – inclusive com uma cena adaptada do livro de Michael Crichton que não coube no primeiro filme – eles ficam sobrando em um longa de aventura que poderia ser excelente.
Eu entendo que em uma crítica não é bem quisto que a gente avalie um filme de acordo com o que ele poderia ser, portanto digo que, o que Jurassic World: Recomeço é, consegue divertir, seguindo as tendências da franquia, e trazendo um elenco excelente. Porém, não consigo deixar de pensar que tinha potencial para muito mais, seja na discussão das implicações da existência de animais antes extintos em um mundo contemporâneo, ou até em mostrar mais desses animais pré-históricos para uma nova audiência.