O poema Boots, de Rudyard Kipling, publicado em 1903, é uma conjectura sobre o que um soldado britânico estaria pensando durante a segunda guerra dos Bôeres, na África do Sul. Os versos devem ser lidos em uma cadência que lembre o ritmo de passos, como o ator Taylor Holmes gravou em 1915 (já em um contexto de Primeira Guerra Mundial). Esse poema foi usado em contextos de guerra mesmo, de treinamento de soldados à marchinha, e agora no filme Extermínio: A Evolução.

O poema traz a ideia de repetição incessante, uma marcha infinita para a guerra, um lugar cheio de demônios de onde não há escapatória (“there’s no discharge in the war” ou “não há dispensa na guerra”) e que vai deixar todo mundo maluco. Este lugar também é a Grã-Bretanha neste futuro pós-apocalíptico infestado do vírus Rage, que transforma as pessoas em zumbis raivosos sanguinários.

O longa começa, no entanto, com um flashback de 28 anos antes, em que Jimmy está assistindo Teletubbies com as irmãs e primas enquanto algo acontece com os adultos da casa. Logo ele descobre que os zumbis estão atacando todo mundo e ele corre para a igrejinha pedindo ajuda para seu pai (o padre), que está certo de que este é o juízo final e está pronto para o arrebatamento. Jimmy se esconde e consegue se salvar.

Eis que 28 anos depois, a Grã-Bretanha agora está submetida a uma quarentena, monitorada pela OTAN, por tempo indeterminado, pois é o único local do mundo em que o vírus não foi contido. Os sobreviventes restantes estão por conta própria e não recebem nada do mundo exterior. É neste contexto que Spike (Alfie Williams), um menino de 12 anos, sobrevive em uma comunidade estabelecida em uma pequena ilha do arquipélago com uma passagem para a ilha maior, de onde eles tiram recursos como madeira. Logo acompanhamos então a primeira incursão do jovem fora da comunidade para aprender a matar os zumbis e fazer a coleta de possíveis utilidades. There’s no discharge in the war.

O primeiro filme da franquia tem uma lógica interna muito simples na qual um vírus poderoso criado em laboratório escapou e infectou o país e então, 28 dias depois, acompanhamos um grupo de sobreviventes buscando um espaço livre de infectados. O segundo longa traz mais explicações sobre as implicações políticas e sobre as consequências da infecção, além de introduzir uma possibilidade de cura. Neste terceiro filme, o vírus tem mutações e os sobreviventes já estão descolados do que antes era “o normal” da sociedade, com vários inclusive nascidos nessa nova ordem, como Spike. Uma evolução à la Mad Max.

Em Extermínio: A Evolução os zumbis têm classes diferentes: tem os “rastejantes”, que são gordos, lentos e não conseguem se levantar direito, tem os “corredores”, que já conhecemos dos outros filmes, e tem os “alfas”, que são muito fortes, difíceis de matar e são líderes de bandos de corredores que aprenderam a caçar – dessa forma os zumbis não morrem mais de fome, como antes. O perigo não são mais os recém-transformados infiltrados nas zonas seguras, mas sim os zumbis que já estão vivendo por lá há anos. De aparência, até na forma de se movimentarem, os monstros aqui lembram demais os titãs de Attack on Titan: rostos maníacos, pelados e desengonçados. Tem até uma cena, muito bonita aliás, da silhueta deles em uma colina, próximo a uma árvore, que parece demais algo do anime.

O longa também consegue explorar bem o núcleo principal, especialmente a relação familiar do menino e os pais (Jodie Comer e Aaron Taylor-Johnson), de modo que criamos empatia por eles. Os momentos de conversa de Spike com o pai e com a mãe são algumas das melhores cenas do filme, pela sensibilidade e conexão entre eles, como na cena com o pai na casa abandonada e com a mãe na igreja. A relação com a mãe também rende momentos belíssimos como no campo florido e no templo de ossos – imagino que contribuições do roteirista Alex Garland, já que lembram momentos lúdicos de seus filmes como Aniquilação e Guerra Civil.

Além da família, o longa tem mais três personagens que trazem uma nova perspectiva sobre as possibilidades do novo universo de Danny Boyle: o primeiro traz a realidade fora da quarentena, o que o “mundo real’ está pensando; o segundo é um tipo de xamã e fala sobre a “boa morte”, que não devemos esquecê-la (memento mori); já o terceiro parece ser um líder de culto e estabelece um tipo diferente de sociedade. Penso que veremos mais dessas três perspectivas nas duas continuações já confirmadas e estou bem curiosa sobre isso.

A franquia Extermínio parece que vai seguir um rumo um pouco mais descolado da realidade do que os primeiros filmes e sem inventar muitas explicações sobre os acontecimentos. O que talvez também se distancie do sentimento que o poema Boots implica no inicio do filme, de tensão, rigidez e inevitabilidade do conflito. Este terceiro serve como uma introdução a um novo universo pós-apocalíptico britânico, mais fantasioso e divertido até, que ironicamente, em tempos pós pandemia de COVID-19, parece mais palpável quando imaginamos como seria essa situação no mundo real.