A ideia do filme anti-guerra existe desde os primórdios do cinema, ainda mais nos países que historicamente possuem papéis grandiosos e cruciais em vários conflitos ao longo do século XX, narrativas que buscaram pintar as obscuridades geradas por eles ou repensar o papel e o dever do soldado. Tais narrativas são bastante presentes no cinema moderno dos Estados Unidos, em meio a uma época de desilusão com o próprio país, tanto com as tramas políticas controversas dentro da nação quanto com as milhares de mortes jovens nas guerras inúteis ocorrendo no exterior, histórias que quebravam a imagem de “terra da liberdade” idealizada pela Hollywood clássica. Em Guerra Civil, Alex Garland não está interessado em apenas desenhar uma imagem ideologicamente duvidosa de seu país, mas também tratar de temas relacionados à guerra que vão além da troca de tiros e dos impactos sociais e históricos.
Fugindo um pouco da estilização do conflito em si, o longa foca sua lente na viagem de um grupo de jornalistas pela terra devastada dos EUA, com o objetivo de conseguir um depoimento do presidente, estando sobre uma ameaça de morte pelo lado oposto da grande guerra civil que assola o país. A motivação da guerra, juntamente de seu desenrolar e batalhas, nunca são evidenciadas pelo diretor, fugindo completamente de uma abordagem gráfica e direta de toda aquela situação que ronda seus personagens, mantendo seu foco narrativo no desenvolvimento psicológico dos jornalistas durante sua jornada – fortemente potencializada pelas brilhantes atuações do elenco principal – sempre deixando muito claro seu discurso político durante o filme.
É muito evidente o que o diretor quer passar com essa história, expor a hipocrisia cultural de um país construído em cima de segregação e racismo estruturado, sendo essa ideia extremamente e assustadoramente exacerbada nos momentos chaves da trama onde esse discurso fica evidente. Além dessa proposta revisionista, Garland gira seu desenvolvimento narrativo em volta das questões que envolvem o trabalho do fotógrafo de guerra, acerca dessa fascinação do ser humano pela imagem, colocando-a por cima de uma suposta ética humana, onde todo o embate direto entre as forças armadas atua como um cenário de arte para os jornalistas que ali estão, enfrentando o perigo apenas para se apoderar dele, como se seu papel como observador fosse superior a toda a complexidade social e política que compõe a guerra civil.
A não representação gráfica do conflito evoca muito bem a proposta anti-guerra do longa, não havendo espaço para um suposto desenvolvimento pleno desses acontecimentos. As cenas em meio as batalhas são filmadas de forma crua, sem quaisquer tipo de glamourização e glorificação de nenhum dos lados, com a câmera sempre presa aos seus protagonistas e em suas reações como os observadores passivos de uma onda de violência que, apesar que não tenhamos esse conhecimento claro, é puramente ideológica. O objetivo de Lee (Kristen dunst), Joel (Wagner Moura) e Jessie (Cailee Spaeny) é obter o registro, não importa o que aconteça, pois é a imagem que preserva aquela simbologia do conflito.
Guerra Civil se mostra como um filme extremamente político, abrindo mão de se assumir como um épico de guerra para impor um discurso que, mesmo que possa soar óbvio, é necessário.