O único filme do escritor José Agrippino de Paula, conhecido pelo livro PanAmerica (1967), que inspirou a criação da tropicália, é uma comédia distópica, com uma crítica nada sutil ao regime ditatorial brasileiro, que estava em pleno endurecimento no ano de 1968, mas também no auge dos movimentos de contracultura. O longa, porém, só pôde ter exibição pública de verdade em meados dos anos 1980.

Este talvez seja um dos longas mais “marginais” do Cinema Marginal, visto que mantém pouquíssimo das convenções cinematográficas do cinema clássico, no qual a experimentação toma conta da montagem e, principalmente, de todo o trabalho de som da obra.

O que há de narrativa gira em torno da criação de um robô com a aparência de Hitler que vai liderar um golpe de Estado fascista “de verdade” agora, já que Adolf era só um conservador democrata. Em oposição ao ditador está um samurai agente comunitário caótico (Jô Soares) e um Coisa (dos quadrinhos do Quarteto Fantástico) depressivo. Além disso, o robô Hitler tem como amante os Estados Unidos, representados por um homem com a bandeira americana amarrada na cintura.

É um filme praticamente sem diálogos e trilha sonora; os sons variam entre ruído branco, matérias de rádio, falas repetidas e barulhos de animais, neste caso sempre que os conspiradores “conversam” entre si. As imagens também muitas vezes parecem não fazer sentido: ora um casal está de quatro em uma borracharia, ora o samurai está ajudando uma comunidade carente, ora outro casal vai tomar banho em um rio, ora o Coisa está tentando fazer xixi e por aí vai. Fica totalmente a cargo do espectador juntar as peças dessa colagem maluca para criar algum sentido para o que está sendo apresentado – ou não também, ou então é só para sentir o desconforto mesmo.

Por outro lado, a crítica ao regime é muito clara e ousada. O diretor toca em um tema que é delicado até hoje: a responsabilidade dos Estados Unidos (e a participação da mídia conivente) instaurando o poder dos “Hitlers” do “Terceiro Mundo” a partir do financiamento de diversos golpes de Estado, especialmente na América Latina, para frear o avanço das revoluções socialistas. Embora estes fossem completamente devotos à política estadunidense, até hoje são raras as vezes em que são equiparados a Hitler ou Mussolini nos seus verdadeiros ideais. Portanto, ao explicitar a ligação entre fascismo e Estados Unidos, em 1968, Agrippino de Paula mostra que, mesmo no olho do furacão, já era notável a existência da intervenção americana no país, que alguns insistem em negar ou minimizar em pleno 2026.

Além disso, o filme também tem um certo tom de pessimismo ao fazer com que os supostos heróis optem pelo suicídio ao se verem encurralados em suas empreitadas, enquanto a população observa apática. A cena que encerra o longa, em que o samurai bate com um pedaço de carne em uma televisão, sela a ideia de impotência, e ao mesmo tempo de repúdio ao que é mostrado na mídia.

Hitler IIIº Mundo não é um filme fácil de assistir. A desconexão entre imagem e som cria uma angústia terrível, os barulhos são extremamente desconfortáveis e as imagens alternam entre o aleatório, o bizarro e o nojento. A suposta comédia vem desse nervoso, mas que também não chega a passear pelos tropos do terror ou do drama. Talvez a definição melhor seja algo próximo da arte contemporânea, como a videoarte ou o happening – um evento cênico espontâneo, provocador e sem trama. Também usa de elementos da Pop Art quando traz elementos da cultura popular, especialmente com o personagem Coisa, e a estética kitsch, empregada em diversos filmes do movimento. A experiência cinematográfica mais próxima que já tive foi assistindo Pink Flamingos (Waters, 1972).

Ainda assim, é um filme que merece todo o reconhecimento pela audácia de desafiar os padrões do audiovisual, mas, principalmente, por escrachar as conexões da ditadura cívico-militar no ano de AI-5. E que a apatia social que Agrippino de Paula já apontava naquela época não se perpetue mais nos dias de hoje.