Eu tinha muito carinho pelos longas do Quarteto Fantástico lançados durante os anos 2000 dirigidos por Tim Story. Quando criança, costumava assistir muitas vezes… Gostava bastante desses dois filmes: impressões essas que não sobreviveram ao tempo. Ver essas obras novamente, demonstrou o quão pífia é a direção de Story, pairando entre uma sexualização exacerbada dos irmãos Storm, especialmente da personagem interpretada por Jessica Alba, e semelhanças aos filmes de comédia pastelão que eram feitos em massa nesta época.

Infelizmente, esses filmes não se redimiram com o tempo, algo que talvez tenha sido pouco discutido pela tentativa de reboot de 2015, que resultou em uma das piores obras cinematográficas do gênero de super-herói. Apesar disso, sempre tive um pequeno apego a esses personagens e esperava poder ver alguma obra que realmente abordasse o Quarteto da forma correta, algo que nenhum dos filmes anteriores conseguiu realizar.

Dito isso, posso afirmar que Quarteto Fantástico: Primeiros Passos é o primeiro filme do supergrupo que o apresenta como uma família, sendo grande parte de sua narrativa heróica atrelada a esses laços familiares que seus personagens compartilham. Pela primeira vez, Sue Storm (Vanessa Kirby) e Reed Richards (Pedro Pascal) soam como um casal de fato, que possui seu dilema dramático em relação a sua primeira experiência como pais; Johnny Storm (Joseph Quinn) e Ben Grimm (Ebon Moss-Bachrach) são mais que personagens cômicos estereotipados, eles compartilham da mesma dor de seus companheiros quando a vida de seu sobrinho está em perigo, possuindo profundidade e carisma que não se manifestam em forma de piadas bestas.

O diretor Matt Shakman – que já mostrou sua qualidade no seriado Wandavision – adota uma estética que remete ao retrofuturismo idealizado durante os anos 90, visual esse que enxerga o futuro tecnológico com um olhar do passado, como se todos os seus elementos de ficção científica ficassem atrelados a todo aquele estilo retrô dos EUA nos anos 50 e 60. Essa escolha estilística concede um respiro em relação à padronização visual de todo o MCU, normalmente refletida em cinematografias ausentes de cor, algo bem evidente em seus dois últimos longas, Thunderbolts*, sendo uma simulação de um filme indie ala A24 e Capitão América: Admirável Novo Mundo, com sua trama e estética genérica típica do estúdio. Por outro lado, Primeiros Passos possui um visual bem vibrante e intenso, detalhe esse que não se limita apenas ao seu cenário na terra, se estendendo até mesmo em seus momentos no espaço, dando origem a uma das melhores sequências de ação já produzidas nesse universo.

Além de seu visual genuinamente belo, Shakman ainda consegue potencializar seus elementos dramáticos conforme a narrativa avança, focando sua câmera nos conflitos morais e heróicos de seus personagens, transformando a dinâmica de família do Quarteto Fantástico na principal matriz emocional do filme. Antes de ideias e tentativas de estabelecer uma conexão emocional com os heróis, algo que eu acredito que seja um dos pilares do grande sucesso popular desse gênero, o MCU falha muitas vezes em construir uma ideia individual para seus filmes como uma obra independente, algo que aqui é maravilhosamente bem feito. Quarteto Fantástico: Primeiros Passos se revela um dos melhores filmes lançados pelos Estúdios Marvel. Um longa que concede peso aos seus protagonistas e consegue criar esse laço familiar em que o grupo foi fundado.