Coração de Lutador é uma obra que gerou certa curiosidade por parte do público por dois principais motivos: por ser o primeiro trabalho de Benny Safdie sem o seu irmão Josh — que também irá lançar seu primeiro longa solo neste ano, a semi-cinebiografia esportiva Marty Supreme — marcando o fim de uma parceria que perpetuou por praticamente toda a carreira dos dois na sétima arte; e pelo enfoque na performance de Dwayne Johnson, que acredito ser o principal motor da divulgação de mercado do filme, refletindo sua nova fase na carreira, em que o ator busca abandonar seus papéis cômicos e se dedicar a projetos, os quais, segundo suas mais recentes declarações, seriam mais “sérios”, com o objetivo final de obter maior reconhecimento nas premiações da mídia estadunidense. A obra então, aparenta manter suas bases criativas dentro desse aspecto, como uma cinebiografia oscar bait que não possui tanta ambição em trabalhar seus elementos dramáticos e estéticos. Porém, o resultado final do trabalho de Benny Safdie se revela como algo muito mais ambicioso.

A narrativa gira em torno do lutador do UFC Mark Kerr (Dwayne Johnson), cobrindo um curto período de sua vida entre os anos de 1997 e 2000, em que Kerr enfrentava um grande vício em drogas, como também a pressão de finalmente lidar com a quebra de sua invencibilidade, ao mesmo tempo que tenta manter seu relacionamento com sua namorada Dawn (Emily Blunt). A partir dessa proposta, Safdie trabalha essa relação conflituosa entre a ambição de Mark e sua sequência de auto destruição mental em busca dessa ambição, filmando todo o ambiente de maneira claustrofóbica e os acontecimentos de maneira quase documental.

Isso fica, ou pelo menos deveria ficar, muito claro na escolha do diretor em usar a película 16mm, sendo ela fortemente caracterizada por sua granulação de imagem, algo que pode ser considerado por muitos como uma simulação do visual cinematográfico da época no qual o filme se passa. Essa estética, quando colocada dentro da obra, não parece possuir alguma finalidade sensorial ou visual além de um simples fetiche no uso de uma suposta estética autoral, ainda mais quando se sabe que Safdie pensou o longa para as telas em IMAX.

Esse visual, muito adotado pela A24 como uma forma de estimular a pseudo intelectualidade dos espectadores, apesar de soar como uma tentativa de conceder um teor culto ao longa, é até bem utilizada em sua maior parte para desenvolver esse sentimento íntimo de seu protagonista, mesmo que a granulagem de sua fotografia seja apenas uma decisão de tentar soar como uma característica autoral. Kerr é sempre filmado a partir de enquadramentos fechados em seu corpo e mente, em cenários levemente escuros e com sua cinematografia documental, como se o filme fosse composto por cenas reais. Mesmo nos momentos em que Kerr está em cima do ringue, a câmera nunca deixa de o sufocar, se utilizando tanto dos golpes de seu adversário quanto de toda a plateia eufórica que o vê perder, como se tudo fosse feito para recair sobre ele

Mesmo que essa ideia dramática e claustrofóbica seja muito bem trabalhada em sua encenação, pela qual vemos Johnson e Blunt contracenando de maneira brilhante, a narrativa não concede muito espaço para a relação entre os dois, pelo menos não de forma lateral e ambígua. Como disse no parágrafo anterior, todo esse drama entre o casal é, assim como todo o filme em sua maior parte, focando no ponto de vista indissociável de Mark, chegando ao ponto de a personagem de Emily Blunt servir apenas como um mecanismo narrativo para intensificar seu dilema emocional, escolhendo não a mostrar para além de seu papel como a esposa conflitante.

Em meio a esse dramalhão conjugal, esportivo e melancólico, Benny Safdie realiza o que talvez seja o grande ponto de sua obra: uma narrativa que te engana até o último minuto de tela. Coração de Lutador não é uma cinebiografia interessada em desenvolver um épico de superação e poder, mas sim nas características intrínsecas de seu protagonista, dando espaço para um final que pode soar desesperançoso, mas que, ao mesmo tempo, quebra diversas expectativas idealizadas pelo próprio filme, detalhe esse que deixa o autorismo de Benny Safdie muito mais em destaque do que qualquer escolha estética espertinha.

Entre as demandas de sua produtora e um subgênero que coleciona obras e características já saturadas, Benny Safdie consegue construir algo particular e íntimo, que infelizmente é afetado por diversas decisões mal tomadas em sua realização.