Boa Sorte, Divirta-se e Não Morra, dirigido por Gore Verbinski, é extremamente divertido: um homem todo surrupiado e vestido com aparatos tecnológicos estranhos entra em uma lanchonete, declara ser do futuro, e diz que precisa de um punhado de voluntários para acompanhá-lo em uma missão que vai salvar o mundo, naquela mesma noite, ou então vai explodir a lanchonete e matar a todos.

Ao longo do filme, nós conhecemos a história e as motivações de cada membro da improvável equipe que é formada; situando um mundo que se revela cada vez mais estranho: com celulares que literalmente hipnotizam adolescentes e tornam eles zumbis, pessoas alérgicas à Wi-Fi que são ostracizadas, e uma empresa que transporta clientes para o Metaverso de forma permanente. Demoramos para descobrir se o viajante, interpretado por um excelentemente solto e intenso Sam Rockwell, é um lunático, se é de fato um soldado vindo de um futuro distópico e revivendo aquela noite (e vendo a sua equipe morrer) várias vezes até completar a sua missão, ou, talvez, se ele exista em um meio-termo.

É natural historicamente, dado os nossos sistemas de organização do trabalho, que o valor do ser humano seja medido pela sua capacidade produtiva. Nesse sentido, pode emergir uma percepção e sentimento do indivíduo como descartável, facilmente substituível.

Nesse contexto de relação social pessoal-profissional já fragilizada, a emergência da inteligência artificial, e com isso a prospecção de uma sociedade do trabalho permeada muito intensamente por ela, gera uma contradição, e conseguinte ruptura, gigantesca: humanos não mais competem só contra humanos, mas também contra máquinas; o seu valor é medido pelo quanto você produz, mas as estruturas de produção não precisam mais de você. Boa Sorte, Divirta-se e Não Morra aparece nesse contexto, articulando o dispositivo do looping temporal, típico da ficção científica, com a nossa nova realidade de descartabilidade agravada do indivíduo.

O fato de que ele é mais um de vários filmes recentes do tipo — ficção científica de médio (ou baixo) orçamento com muitos elementos de ação e comédia, que prevê problemáticas eminentes entre trabalho e tecnologia — revela tanto sobre a proliferação social do assunto, quanto sobre uma permissão que filmes menos regidos pelos grandes estúdios tem de criticar certas novas tecnologias; e, também, sobre o grande potencial do gênero de ficção científica (essencialmente, nesse contexto, um subtipo da fantasia) em discutir desafios sociais a partir de elementos fantásticos. Compartilha com Y2K – O Bug do Milênio (Mooney) — filme de 2024 que imagina que o “bug do milênio”, de 1º de janeiro de 2000, realmente aconteceu, de uma forma caricata e violenta — uma estética de fabulação mitológica na forma de representar tecnologias; com Contos Assustadores (Boden e Fleck, 2025) — filme com Pedro Pascal que aborda o tribalismo que fundou a fragmentação política extremista de hoje em dia — divide uma estrutura narrativa multilateral nos pontos de vista (mais humanista que isso impossível) e intertemporal; e, com Eu Vi o Brilho da TV (Schoenbrun, 2024), partilha o emprego de um realismo fantástico “fictício-científico” ofuscantemente hipertextual.

A sua versão específica de futurismo, entretanto, é um pouco diferente: enquanto Y2K, por exemplo, existe inteiramente dentro da ideia de uma ruptura tecnológica intervindo no presente; Boa Sorte, Divirta-se e Não Morra se constrói em uma progressão muito segmentada, que coloca os vinte minutos iniciais e os vinte minutos finais do filme em opostos polares. No início, é sequer possível discernir se o personagem de Sam Rockwell está dizendo a verdade sobre alguma coisa ou não; produzindo uma sequência insana, ao mesmo tempo muito tensa mas também muito cômica — em isolamento, a abertura poderia ser um ótimo curta-metragem —, justamente por não haver nenhum artifício de futurismo ou ficção-científica em vista. Em contraste, o fim do longa é a culminação de todas as ideias e construção de mundo salpicadas ao longo das suas 1 hora e meia de duração. É tanto satisfatório narrativamente e tematicamente, dado todo o trabalho que tivemos para chegar ali, quanto, também, visualmente: a obra finalmente se permite finalmente mergulhar totalmente no fantástico. O resultado é que, independente da loucura que estamos assistindo na tela, aquela situação é crível para aquele universo. O filme tomou o seu tempo para sair do “normal” e chegar no ápice do seu fantástico

Dessa forma, o longa conquista um início e um final forte, este também visualmente impressionante (claramente, uma boa parte do orçamento é concentrada aqui; vulgo: é o motivo do primeiro ato inteiro se passar na mesma locação). Um meio que, apesar de possuir dificuldades certamente inerentes de um filme de “aventura urbana noturna” feito depois da normatização do cinema digital — é muito difícil filmar a noita das ruas das cidades no digital com um orçamento modesto; em comparação, no analógico: Depois das Horas (Scorsese, 1985), Os Selvagens da Noite (Hill, 1979), e a duologia Fuga de Nova York (1981) e Fuga de Los Angeles (1996), de John Carpenter, que são lindos de morrer —, é bem-sucedido em ultrapassar esse obstáculo, aplicando uma metodologia narrativa engenhosa de vinhetas específicas para cada personagem, onde os esforços emocionais do roteiro são concentrados.

Em última instância, a própria estrutura narrativa de Boa Sorte, Divirta-se e Não Morra serve para contar a história no coração do filme: como o humanismo é necessário para superar o perigo real e inalienável da emergência descontrolada da tecnologia; como a humanidade não pode ser salva sem a superação dos dispositivos estéreis de descartabilidade dos nossos pares — representados na forma insensível e gélida que o “homem do futuro” trata os seus supostos aliados (que também é a forma que aprendemos a nos tratar) — onde a extensão da empatia que oferecemos para um desconhecido pode ser sintetizado com um “boa sorte, divirta-se, e não morra”.