Esse filme demonstra muito como a influência de Sam Peckinpah no cinema de Walter Hill se mostra como uma questão profunda quando nos referimos as questões narrativas e temáticas. Hill não apenas admirava Peckinpah, ele absorveu princípios estéticos, éticos e formais que se tornaram parte da sua própria assinatura estilística. É comum dizer que Hill é um dos herdeiros diretos da gramática violenta-poética inaugurada por Peckinpah durante a segunda metade dos anos 60. A partir de Meu Ódio Será Sua Herança (1969), ele buscou uma abordagem estilizada ao lidar com a expressão da violência no cinema, isso se utilizando de sua montagem fragmentada, câmera lenta balética e a noção de que a violência expõe verdades emocionais dos personagens. Além disso, reinventou o gênero do faroeste, convertendo-o em um espaço melancólico que aborda o fim de uma era, a morte do mito e a violência como uma inevitabilidade histórica.

Mesmo quando ambientados em metrópoles contemporâneas, subsolos industriais, ruas neon ou cenários pós-modernos, os filmes de Hill funcionam como faroestes. Incorporando a estética visual/narrativa do gênero e a transfere para o contexto urbano. Hill pega cada um desses pilares e os reorganiza na metrópole contemporânea, transformando Nova York em submundos urbanos onde a única lei é a força. Apesar disso, Hill não busca uma caracterização realista, mas sim um visual extremamente estilizado, tanto na maneira como ele escolhe contar essa história, como na escolha criativa por trás dos visuais das gangues. Elas não são realistas, são tribos estilizadas, cada uma com identidade visual própria e muito marcante, seja em sua vestimenta identitária, na marca de guerra pintada em seus corpos, ou na maneira como se comportam, é tudo tratado de maneira exagerada

A estética hiper estilizada que Walter Hill replicaria em Ruas de Fogo já estava inserida de maneira brilhante em Os Selvagens da Noite (1979). Todo o universo do filme é construído por cima da identidade das gangues de Nova York, tanto em suas vestimentas cafonas que sinalizam seu grupo, como na caracterização da cidade caótica da noite. Nova York é retratada como uma metrópole sombria, suja e violenta, porém ao mesmo tempo fantástica e mitificada. Um ambiente urbano mítico, simbólico e não literal é criado pela iluminação neon, pela trilha sonora sintetizada e pela presença constante da escuridão noturna. Isso torna a jornada dos membros da gangue Warriors quase que uma odisseia mítica do meio urbano, se tratando de uma estrutura narrativa homérica.

Os Warriors são jovens lutando para sobreviver a uma noite aterrorizante. A violência não é glamourizada; ela é ritualizada, quase coreografada, apresentando a cidade como um campo de batalha simbólico. Não existem figuras paternas, parentes ou estruturas sociais estáveis, somente policiais ou gangues. Isso fortalece a noção de que a juventude foi deixada à mercê de um sistema violento e desintegrado. A locutora de rádio que envia mensagens codificadas entre as gangues atua como uma narradora mítica e onipresente (algo que claramente foi a inspiração para esse mesmo elemento de narração na franquia John Wick). Ela nunca se mostra, apenas sua voz ressoa para declarar que “os Warriors estão sendo caçados”. Isso sem nem falar da maravilhosa química de time que os protagonistas do filme possuem juntos. É muito empolgante ver o sentimento de pertencimento que essa história passa, ainda mais quando isso se reflete na ação desenfreada que parece que nunca para, até mesmo nos momentos de transição da história.

Os Selvagens da Noite então se mantém como um dos grandes clássicos deste cinema urbano, que emergiu durante os anos 70 com a Nova Hollywood lidando com a violência e o caos cinematográfico a partir de um olhar crítico e social sobre a juventude a beira da sociedade, mas que são detentores de uma força inimaginável.