Nora Moon e Hae Sung, amigos de infância que guardam uma profunda conexão na Coreia do Sul, veem sua relação ser interrompida quando a família da menina decide se mudar para Toronto. Vinte anos depois, Hae Sung decide ir a Nova York, onde Nora vive com seu marido americano Arthur, para reencontrar seu primeiro amor.

No extra “Bound by Fate – Exploring Past Lives” tem muitas coisas com potencial de ressignificar o filme. Uma das afirmações mais interessantes da diretora Celine Song é de que a identidade de Nora é construída mais em torno da imigração do que da nacionalidade em si. Além disso, para ela, o coração do filme não é a relação entre Nora e Hae Sung, mas entre a mulher e Arthur. Ainda que esta não seja a única visão possível, certamente gera diversas reflexões.

Isso porque o centro temático de Vidas Passadas é o conflito entre Nora Moon e Na Young (seu nome coreano), não apenas nas relações interpessoais, mas na visão de si mesma frente a elas. Em outro trecho do extra que comentei, a diretora menciona que o destino é, na visão ocidental, o ato de criar um épico para uma vida ordinária. Por outro lado, o in yeon, conceito utilizado pela protagonista para tentar minimizar a sua angústia, consiste em um encontro predestinado de duas pessoas ao longo de diversas reencarnações. Parece próximo, porém não é tanto.

O destino ocidental normalmente é interpretado naqueles grandes eventos: o começo da vida, relacionamentos duradouros, perda de entes queridos, entre outros. O in yeon, como comentado no filme, pode ser meramente de uma conexão de roupas entre dois estranhos. Essa diferença gera uma curiosa característica no olhar, já que se altera não só o foco da interpretação de eventos, como seus objetivos. Embora a base seja igual, o destino é abstrato a ponto de o indivíduo agir conforme a oportunidade momentânea, enquanto o in yeon tranquiliza, afinal, uma pequena conexão já basta, e nos vemos na próxima vida.

Assim, quando a trama busca contar uma história de amor por meio de sutilezas, talvez não seja como estamos acostumados. Em vez de uma história épica de amor, o que sobra é o cotidiano. Nesse conflito cultural, pode não haver espaço para um determinismo romântico ocidental, mesmo que Nora pareça acreditar nele. Não é apenas a paixão shakespeareana que existe, afinal há o dia a dia, muito diferente dos recortes das histórias de amores impossíveis.

E não se trata aqui de um maniqueísmo cultural. É apenas a história de uma imigrante presa entre duas concepções de mundo, e dois amores ligados a eles. Uma narrativa extremamente focada em poucos e pequenos núcleos. Nesse aspecto, lembra o ótimo Cha Cha Real Smooth (Raiff, 2022), com uma diferença basilar: em Vidas Passadas, o marido coadjuvante é central, e talvez seja o maior representante das sutilezas que citei. Afinal, nessa dúvida melodramática, ele representou o lado mundano, em oposição (ou em adição?) ao onírico. Aliás, essa dualidade, Arthur e Hae Sung, curiosamente inverte os conceitos de destino e de in yeon, já que o americano representa uma ideia mais minimalista, enquanto o coreano guarda em si a história épica.

E Vidas Passadas dói quando se percebe que, por trás das belas imagens, dos pequenos momentos de carinho e do conforto da trilha sonora, há uma dialética entre nostalgia e materialidade. É mais complexo do que apenas querer um amor romântico mas não poder. Todavia, também é diferente da ponderação entre razão e emoção — e novamente cito Cha Cha Real Smooth para exemplificar esse caso. O filme de Celine Song é um conto de não apenas um tipo de amor.

A sutileza que causa um encantamento com Vidas Passadas é também a sutileza que destrói o espectador quando ele menos espera. A sensibilidade da diretora com as questões aqui envolvidas faz o filme ser uma peça incrivelmente bela e melancólica ao mesmo tempo. E, certamente, emocionante. Um dos grandes filmes de 2023.