A abertura do celebrado álbum Clube da Esquina, de Milton Nascimento e Lô Borges, feita em um contexto de ditadura, fala sobre medos e sonhos em um momento em que a liberdade era relativa, o que hoje é semelhante às vivências LGBTQIAP+ no Brasil. Com isso em mente, seguimos a vida de Aisha, moradora de Belo Horizonte que no dia seguinte irá para São Paulo cursar sociologia. Dessa forma, acompanhamos o seu último dia e noite na cidade com sua família e três melhores amigas, Will, Bramma e Igui.

Filmado de maneira quase documental e com muita improvisação das atrizes, que interpretam versões delas mesmas de forma muito natural e familiar, a narrativa é um recorte, “slice of life”, bem alegre, que não ignora problemas comuns entre pessoas queer, como distanciamento da família e homofobia, mas principalmente ressalta a diversão, o acolhimento e o carinho entre amigas. O texto do filme é bem fluido e reproduz de forma espontânea e muito fiel o palavreado e jeito de falar do “vale” — inclusive queria saber se pessoas pouco familiarizadas conseguiram entender todas as referências e principalmente aproveitar o humor maravilhoso da Will.

A direção nos coloca como observadoras daquele grupo, ao mesmo tempo que somos convidadas a participar das festas e também de conversas íntimas delas,e assim, o acolhimento se estende ao espectador. É um filme intrinsecamente queer, mas que qualquer pessoa com um grupo de melhores amigas pode se identificar, bem como quem teve que se despedir de alguém querido que foi morar longe.

De certa forma, a abordagem leve do longa é um frescor em tempos em que as liberdades já conquistadas estão sendo questionadas e que há pouca conversa sobre garantias de novos direitos para as minorias. Em nenhum momento a vivência LGBTQIAP+ é ignorada, pelo contrário, mas tem como foco o que há de bom quando você encontra as suas pessoas e o seu lugar no mundo.

Da mesma forma que a celebrada canção que dá nome ao longa, Tudo o Que Você Podia Ser é uma história sobre resiliência e esperança. A prova de que histórias de pessoas queer podem ser fofas, agradáveis e não muito diferentes de outras grandes amizades.