Ao longo de grande parte do século XX, os personagens LGBTQIAP+ eram retratados em Hollywood geralmente como figuras cômicas ou trágicas. Mesmo quando tratados com cordialidade, comumente eram referidos como “exceções dignas” que precisavam comprovar sua presença perante o público heterossexual. Durante o final dos anos 1980, essa lógica começou a ser rejeitada por alguns jovens cineastas que surgiram após a decadência comercial da Nova Hollywood, cineastas esses do Novo Cinema Queer. Em vez de procurar aceitação, eles começaram a investigar personagens complexos, contraditórios e frequentemente moralmente ambíguos. O objetivo não partia de simplesmente demonstrar que indivíduos LGBTQ+ eram “iguais a todos”, ou socialmente aceitáveis e toleráveis perante a classe conservadora, mas reconhecer a validade de suas vivências sem solicitar qualquer tipo autorização ou aprovação.

Antes do movimento, o imaginário popular no cinema costumava representar esses personagem de forma trágica ou moralista, e na maior parte das vezes, de maneira estereotipada. Muitas produções cinematográficas retratavam pessoas queer, no âmbito do drama, como vítimas, vilões ou personagens fadados ao sofrimento. O Novo Cinema Queer emergiu como uma resposta a essa situação, particularmente durante a crise da aids, quando os artistas começaram a rejeitar a noção de que precisavam criar personagens “respeitáveis” para obter aceitação social.

Dentro desse contexto artístico e político, Totalmente Fodido exemplifica de maneira perfeita os princípios do movimento. Os protagonistas não são exemplos de conduta nem tentam se conformar às convenções sociais. Trata-se de adolescentes confusos, sexualmente ativos, rebeldes, vulneráveis e contraditórios. Gregg Araki ao invés de buscar tornar seus personagens mais palatáveis para um público heterossexual; ele os retrata em toda a sua complexidade. Diferentemente de uma narrativa linear com um início, meio e fim claros, Araki adota uma estrutura fragmentada, que inclui entrevistas, gravações em vídeo e cenas episódicas.

Essa abordagem experimental conecta o filme ao cinema independente e transmite a sensação de desorientação vivida pelos personagens, algo que como já dito antes, os torna uma representação subversiva em relação ao modo com que o cinema do século XX escolheu representá-los. Apesar de não ser um filme militante no sentido convencional, ele incorpora de forma profunda a dimensão política do movimento, pois a mera presença de seus personagens constitui um ato de resistência.

Ao contrário de diversos filmes queer anteriores, que buscavam aceitação por meio de personagens respeitáveis ou assimilados, Araki retrata jovens revoltados, confusos, autodestrutivos e profundamente desiludidos, que vivem em um mundo urbano em completa decadência. Ele busca uma abordagem franca e, com isso, desenha um retrato de uma juventude que vive o sexo e o amor, abusa de drogas e constantemente é alvo dos preconceitos, expondo uma geração que se sentiu negligenciada tanto pela sociedade quanto pelas instituições convencionais.

Andy (James Duval) é o melhor exemplo disso dentro da narrativa, muito por conta de grande parte dela ser construída por meio de seu relacionamento com Tommy (Roko Belic). Ele sente um tímido desejo de encontrar estabilidade emocional em um mundo que parece constantemente ameaçador, sendo um personagem cronicamente melancólico por conta de sua simples existência. Araki, aqui, não tem como objetivo elaborar biografias completas, mas sim retratar emoções compartilhadas: a procura por pertencimento, o receio do futuro, a urgência em formar famílias alternativas e a percepção de viver em um mundo que constantemente afirma que não há espaço para eles. Ao invés da garantia de que a juventude conduzirá à maturidade e à felicidade, Araki retrata uma geração que acredita que o futuro pode simplesmente não vir a existir.

Em Totalmente Fodido, os personagens constituem uma família escolhida, um conjunto de jovens queer que luta para sobreviver emocionalmente em uma sociedade adversa. Mesmo que o filme tenha uma narrativa fragmentada e não desenvolva cada um personagem de maneira convencional, Araki usa o grupo para ilustrar as diversas vivências da juventude LGBTQ+ na década de 1990. Junto de seus dois outros filme da Trilogia do Apocalipse Adolescente, Geração Maldita (1995) e Estrada para Lugar Nenhum (1997), Araki mesclou a vivência queer ao meio urbano com pequenas doses de um niilismo pós-moderno, retratando jovens que viviam em um mundo sem perspectivas, marcado pelo desejo e pela sensação de fim dos tempos.