Terror Extremo: A Polêmica Brutalidade do Novo Extremismo Francês
Composto por obras transgressoras e, por consequência, polêmicas, que tratavam de assuntos como violência sexual e voyeurismo, o movimento conhecido como Novo Extremismo Francês deu o que falar na virada do milênio. Eram filmes que trabalhavam muito com o que podemos chamar de “cinema do corpo”, termo muito abordado por Linda Williams em seu ensaio Film Bodies: Gender, Genre, and Excess (1991), publicado na revista Film Quarterly.
É pertinente tratar mais sobre esse movimento em uma futura lista sobre ele, mas, aqui, a intenção da Plano Marginal é focar em um gênero específico que se expandiu muito em território francês a partir dessa tendência. E claro que, em pleno outubro, só poderíamos estar falando do terror. Com o Novo Extremismo Francês, surge uma nova geração de cineastas que busca explorar os limites da brutalidade gráfica e da violação dos corpos, em sua maioria femininos. Embora isso gere controvérsias até os dias de hoje, fato é que boa parte dos cineastas dessa tendência são mulheres e há uma discussão válida sobre a apropriação do típico male gaze para comentar sobre a violência sofrida pelas mesmas em sociedades patriarcais.
A seguir, sete filmes do horror extremo francês…

Desejo e Obsessão
Shane e June são um casal estadunidense que escolhe passar sua lua de mel em Paris. Shane sofre com um apetite sexual violento, buscando secretamente a ajuda de um velho amigo, o Dr. Léo Semeneau, com quem trabalhou em experimentos sobre a libido humana. Semeneau, por sua vez, mantém sua esposa Coré, uma mulher que possui os mesmos desejos de seu colega, trancada em seu apartamento. O filme de Denis mistura erotismo com horror e a sexualidade latente está intimamente ligada ao instinto animalesco e visceral. A diretora usa de práticas do cinema de fluxo para inserir o público na busca do protagonista pela satisfação de seus desejos mais bestiais.

Em Minha Pele
Durante uma festa, Esther tropeça e, horas depois, descobre que machucou gravemente sua perna sem sentir dor. Esse é o estopim para um fascínio da personagem pelo próprio corpo que extrapola as fronteiras lógicas e inicia uma compulsão pela automutilação, prática que obviamente irá afetar todas as esferas de sua vida. A diretora Marina de Van (que também estrela no papel principal) trabalha o duelo entre corpo e mente para explorar uma experimentação que começa fascinante e com alto teor erótico, mas acaba culminando em uma bola de neve trágica e lúgubre sobre obsessão carnal. Um comentário extremamente indigesto sobre as particularidades do desejo.

Eles
No meio da noite, um casal ouve barulhos e percebe que está encurralado por alguns estranhos em sua própria casa, obrigando-os a lutar por suas vidas. Em pouco mais de uma hora, a dupla de diretores trabalha muito bem a baixa iluminação com a granulação do digital para estilizar os espaços da casa e esconder tudo do espectador até certo ponto. Os realizadores parecem optar por sequências alongadas que criam uma tensão a partir da paciência ao apresentar as ameaças. Ademais, o longa sugere um caráter sobrenatural dos invasores, especialmente pela quantidade e pelo desenho de som. A inspiração em fatos, mesmo que seja puro marketing, torna o final mais angustiante.

A Invasora
USarah está grávida e em luto pela morte de seu marido. Sua situação fica ainda pior quando, no meio da noite, uma mulher vestida de preto bate em sua porta com o intuito de matá-la da forma mais brutal possível. Maury e Bustillo se saem muito bem ao mostrar a antagonista de maneira quase fantasmagórica; ela parece ter mais controle daqueles espaços do que a própria dona da casa. O filme faz diversas experimentações com a montagem e marca pelo uso bem aparente dos efeitos digitais em momentos pontuais, que poderiam soar deslocados mas somam muito à experiência imagética de tensão e adrenalina que os diretores buscam alcançar.

A Fronteira
Aqui, acompanhamos manifestantes fugindo de uma França caótica por conta do candidato de extrema direita que vai ganhar as eleições. Nisso, eles acabam se hospedando em um hotel de beira de estrada e acabam descobrindo que todos naquele lugar são nazistas, psicopatas e assassinos. Xavier Gens coordena muito bem o aspecto hiperrealista da violência e o contexto sociopolítico da obra, mas o maior mérito é a forma como exprime um aspecto quase místico de sobrevivência. A caracterização dos vilões é ótima, com uma clara inspiração em O Massacre da Serra Elétrica (Hooper, 1974). Um filme eletrizante que nos faz torcer pela protagonista até o fim.

Mártires
Talvez o terror mais emblemático do Extremismo Francês e um dos filmes mais controversos já feitos, Mártires começa com a história de vingança de Lucie, que caça os responsáveis pelo cativeiro brutal do qual escapou quando criança. Assombrada pelos traumas do passado, ela conta com o suporte emocional de sua amiga Anna e nem imagina a verdadeira intenção de seus antigos sequestradores. É impossível dar muitos detalhes sobre o longa de Laugier sem entrar em spoilers pesados, mas o que começa como um thriller intenso se transforma, aos poucos, em uma deprimente e brutal jornada de resistência vazia diante da busca por uma resposta inalcançável.

Raw
Justine é uma garota vegetariana que, em sua primeira semana na faculdade de veterinária, é obrigada a ingerir o rim cru de um coelho como trote para os calouros. Nos dias seguintes, ela começa a sentir um apetite voraz por carne e, com a ajuda de sua irmã mais velha, tenta entender essas novas experiências antes que possa machucar alguém. Ducournau trabalha o subgênero coming of age de forma metafórica, mas não menos frontal em seus simbolismos do amadurecimento feminino e dos desejos carnais. Nesse aspecto, é um filme próximo a Em Minha Pele, só que em uma abordagem mais satírica e absurda, que flerta muitas vezes com o humor mórbido.