Aviso de spoiler/gatilho para depressão e suicídio

O filme acompanha a história real de Christine Chubbuck, uma repórter conhecida por ter sido autora de seu suicídio televisionado no meio do programa de notícias no qual trabalhava no ano de 1974, enquanto ela lida com a depressão, problemas familiares e frustrações profissionais.

De certa forma, Christine faz o caminho contrário de como a internet vem lidando com este caso já há algumas décadas; isso porque a história de Chubbuck se tornou bastante conhecida em fóruns de lost media (ou seja, dedicados a encontrar mídias perdidas dos mais variados tipos) no Reddit e análogos. Há um grupo bastante dedicado a encontrar a gravação dos últimos momentos da jornalista, e que teve algum sucesso, pois já conseguiu confirmar a existência do vídeo e encontrar o seu áudio original.

Para além de outras discussões éticas que podem surgir disso (e não são poucas), abordar o caso de Christine do mesmo modo que um episódio perdido de alguma série é, no mínimo, superficial e desrespeitoso. Para além da gravação, há uma pessoa que chegou ao seu limite e cometeu um ato tão extremo a ponto de se tornar único na história do jornalismo. É isso que o diretor Antonio Campos tenta captar neste longa.

A tônica da narrativa é bastante visível ao comparar a primeira cena com o restante. No início, Christine está se imaginando em uma grande entrevista e, logo depois, acompanha uma transmissão ao vivo. Tudo é frenético e parece importante, até não ser mais. O restante da obra desacelera e dá lugar a um vazio sufocante, e a uma angústia revelada lentamente por pequenos momentos que fazem o espectador sentir Christine. Sentir, porém não necessariamente entender, uma vez que o diretor acerta em não tentar criar explicações nem deduzir motivos, mas apenas demonstrar. Afinal, os acontecimentos que levaram à vida descontente (e, eventualmente, ao seu fim) de Chubbuck são dificilmente captados sem desrespeitá-la, porém o sentimento de estar nessa realidade medíocre é algo tão humano que facilmente desperta a compaixão.

Além disso, não há uma convergência de tensões que levam a um final bombástico. Em vez de uma linha crescente de suspense e de expectativa, há uma sensação de vazio cada vez maior, como se tudo ali fizesse progressivamente menos sentido. Ilustra muito bem essa característica uma cena em que a protagonista é ludibriada por um interesse amoroso a ir a uma espécie de terapia em grupo, a qual acaba por ser uma última etapa na decadência de Christine. Aborda a angústia de enfrentar o fato de que nem todos os problemas podem ser resolvidos, e como há muito mais complexidades na protagonista do que o filme consegue abordar. É um dos muitos momentos que promovem um grande apego à mulher, e ampliam a tristeza de acompanhar a tragédia anunciada. Esse fim trágico, aliás, coroa todo esse vazio angustiante ao não trazer um clímax propriamente dito. Não é catártico, não é emocionante e definitivamente não é bonito, mas apenas melancólico.

Como é bom ver um filme que não leva um tema como esse para o lado da crítica social, nem tenta conscientizar ou algo assim. Não nego o valor da conscientização, porém gosto muito mais quando uma obra busca dar vida a uma narrativa e não meramente a interpretar. Acaba que a discussão surge muito mais como decorrência do que como eixo da arte, a qual se restringe muito mais àquilo que faz de melhor: aflorar os sentimentos de quem assiste.