O Balconista 2, dirigido por Kevin Smith, nos leva a dez anos após os acontecimentos no Quick-Stop. Dante Hicks (Brian O’Halloran) e Randal Graves (Jeff Anderson) se veem obrigados a recomeçar depois que um incêndio destrói a antiga loja de conveniência onde trabalhavam. Agora empregados em um fast-food chamado Mooby’s, os dois seguem presos a uma rotina que mistura tédio e discussões absurdas, enquanto tentam lidar com o fato de que o tempo passou.
“O Senhor fez algo sobre aquele lugar, ele castigou aquele inferno” — é a frase que abre o filme. Bom, não no sentido literal (é uma das primeiras, mas não é a primeira), mas em uma dimensão metafórica. Uma das primeiras frases proferidas sobre o acontecimento que dá início à trama do segundo filme: o incêndio da loja de conveniência Quick-Stop. Simbólico, não é? Um incêndio na Quick-Stop. Uma declaração que estabelece o regime de leitura que organiza o longa: uma interpretação moral de um evento material. Através dessas palavras a destruição ganha um aspecto de causalidade teológica, como se o desastre precisasse, para ser possível, de uma intenção divina.
Se você leu meu texto sobre o primeiro filme — e, honestamente, este aqui vai fazer menos sentido sem isso — ou se assistiu o primeiro filme — e, ainda mais honestamente, por que diabos você está lendo este texto se não assistiu o filme anterior? — percebeu (no primeiro caso) ou pode ter percebido (no segundo caso) o paralelo entre o primeiro longa de Kevin Smith e a primeira parte de A Divina Comédia de Dante Alighieri: O Inferno. Numa rápida retomada: a Quick-Stop era o Inferno particular de nossos Dante (também chamado Dante) e Virgílio (Randal) modernos, local no qual eles precisavam atravessar nove horas de expediente (assim como os nove círculos do Inferno) para escapar (ou: bater o ponto). Figuras, quase indiferenciáveis de um cansaço irônico, que percorriam seus “círculos” sob a forma de horas de expediente.
Começamos a sequência, então, com o Inferno pegando fogo, e uma acusação de que tal acontecimento foi providência divina. Um Inferno que, por ser tão reconhecível, banal e desprovido de grandiosidade, dificilmente poderia sustentar a retórica da punição divina sem parecer, no mínimo, excessivo; ainda assim, o acontecimento é denotado como castigo e, ao fazer isso, instituído de uma gravidade que ele talvez não possuiria por si só.
Após Dante e Virgílio saírem do Inferno, qual é a próxima etapa de A Divina Comédia? Agora é o momento no qual você me responde algo no gradiente entre “eu não tenho a menor ideia do que você está falando” e “é óbvio! O Purgatório”. Ainda existem duas outras possibilidades; caso você não seja religioso e nem tenha conhecimento acerca de poetas italianos do século XIII, pode responder “tá me achando com cara de religioso pra saber isso?”; ou, caso você seja religioso e também tenha conhecimento — e um leve desprezo — acerca de poetas italianos do século XIII, a resposta poderia ser: “tá me achando com cara de blasfemo pra acreditar na escrita de um herege quanto aos reinos divinos?”.
Independente, há apenas uma resposta certa e ela habita o canto direito do gradiente: O Purgatório. Na obra de Alighieri, o Purgatório é quase um duplo geográfico do Inferno. Uma montanha localizada no ponto oposto do globo terrestre em que o Inferno fica, também com nove andares (o Ante-Purgatório, um andar para cada um dos sete pecados, e por fim o Jardim do Éden). Cada nível corresponde a uma forma de erro, mas, dessa vez, passível de correção. Se no Inferno de Alighieri não há salvação, no seu Purgatório o sofrimento é um meio para isso.
Essa ideia de transição — de um espaço saturado de condenação para outro estruturado pela possibilidade de transformação — acompanha uma escolha musical curiosa. Dante e Randal deixam para trás a Quick-Stop e se deslocam até o fast-food Mooby’s. Enquanto dirigem, ouvimos a música (Nothing but) Flowers, da banda Talking Heads (1988). Mais específicamente, um trecho que diz: “Aqui estamos, como Adão e Eva no Jardim do Éden”.
Seria o Mooby’s, então, o Jardim do Éden? A resposta não pode ser simplesmente afirmativa ou negativa. Assim como o Purgatório, em Alighieri, reflete o Inferno sob outra orientação (a ascensão invés de queda), o Mooby’s reflete a Quick-Stop. Antes, o Inferno de Smith era condensado espacialmente em um só lugar, uma única loja que abrigava os nove círculos; do mesmo modo, o Purgatório também é comprimido em um ambiente igualmente ordinário. É o Jardim do Éden, mas não é apenas ele.
Em certo momento, ainda próximo ao início do filme. Jay (Jason Mewes) e Silent Bob (Kevin Smith) dizem que pararam de usar drogas e se converteram ao cristianismo. Uma pequena adição à lore dos gigantescos personagens, mas, mais importante, um grande aceno à principal motriz de O Balconista 2: os personagens estão ascendendo à salvação. No entanto, como em outros momentos do filme, essa elevação é atravessada pela ironia — eles não usam mais, mas ainda vendem. A redenção existe, mas não se sustenta (até agora); os personagens ainda não completaram o percurso ao Paraíso.
Obviamente, não estamos falando do Paraíso literal, mas da representação da versão de Alighieri dentro do mundo de Smith. Falar, então, de “paraíso” é aceitar o jogo proposto pelo filme: um jogo em que as categorias de Dante são mobilizadas do campo da afirmação teológica espiritual para a exposição do desejo — talvez inevitável — de que a mudança de cenário corresponda a uma mudança de estado.
Enquanto no Inferno as almas são condenadas à um sofrimento sem esperança, no Purgatório perpassam por sofrimento com propósito e fim. As almas que lá habitam são, na medida do possível, felizes, mesmo sofrendo, porque sabem que vão se salvar. Uma espécie de tranquilidade paradoxal fundada na certeza de que o sofrimento é transitório. Há, em O Balconista 2, uma cena envolvendo um número musical, que exemplifica bem isso: os personagens suspendem, provisoriamente, o peso de suas circunstâncias e elucidam sua felicidade. Mesmo não estando exatamente onde desejam estar, todos são alegres à sua maneira.
Mas há um perigo no Purgatório: a inércia. Para ascender ao Paraíso, as almas precisam expurgar seus pecados. É necessário a contemplação da vida mundana e o genuíno arrependimento das ações. Exige reconhecimento, esforço e transformação. Em outras palavras: as almas precisam agir para prosseguir. Ser inerte é ser incapaz de converter essa experiência em mudança material. No primeiro filme de Smith, Dante era um agente passivo do mundo; o caos acontecia ao seu redor e ele era engolido por ele. Os clientes — as almas condenadas — buscavam estragar sua vida cada vez um pouco mais. Agora, na sequência, essa ideia é internalizada para seguir a mesma lógica do Purgatório.
Desse modo, os sofrimentos de Dante não são mais consequência das atitudes de outras pessoas, mas dele mesmo. O filme desloca seu interesse para um âmbito mais íntimo e focado na psique de Dante (e dos outros personagens). Agora, a única coisa que impede ele de escapar do Purgatório é ele mesmo; são os conflitos que vagueiam pelos cantos mais escuros de sua mente. Todos os empecilhos que acontecem no filme são basicamente confissões morais disfarçadas de humor obsceno. O protagonista precisa olhar para si mesmo e encarar aquilo que ele vem ignorando há dez anos se quiser prosseguir.
No Inferno, Dante (os dois Dantes) era um mero espectador, agora ele perpassa pelo mesmo trajeto que as almas: ele precisa agir. Randal — nosso Virgílio, o guia espiritual de Dante — é um idiota. Desde o primeiro filme, ele é um agente do caos (e, também, o melhor personagem). Suas pretensões são boas, admito, mas sua execução quase nunca dá certo. Entretanto, as falhas de Randal são cooptadas por Smith para serem utilizadas como agentes de transformação na jornada de Dante.
Ou seja, no primeiro filme, muitas das situações que deixavam a vida de Dante infernal (hehe) eram causadas, sem-querer-querendo, por Randal, como consequência de seus atos impensados — um exemplo rápido: em um momento, Randal vende um maço de cigarro a uma garota de cinco anos; mais tarde, Dante, que é de fato o funcionário da loja, recebe uma multa por isso. Na sequência, as ações impensadas do Virgílio moderno não resultam em consequências materiais para Dante, mas repercutem em reflexões profundas na sua mente. Ele continua a agir sem calcular, mas o efeito disso se desloca para a geração de crises reflexivas. Randal empurra Dante para discussões e confrontos — mas, no fim, isso acaba forçando Dante a perceber o que quer da vida. Um guia caótico que ainda assim produz catarse, forçando o protagonista a atravessar o expurgo necessário para abrir a porta do céu.
Em O Balconista (Smith, 1994) a fotografia em preto e branco reforçava o isolamento e a opressão do Inferno; ausente de cores e repleto de sombras se esgueirando pelos cantos. Agora, há cor, há um novo ponto de vida na película. Contudo, ainda não estamos no Paraíso, o mundo não tem o direito de se encher tanto de vida assim. Há cor, mas há um limite; ela é restrita, quase disciplinada. O fast-food Mooby’s carrega na identidade de sua marca duas principais cores: roxo e amarelo — e se adentrarmos na Psicologia das Cores podemos percebê-las como duas tonalidades que indicam, respectivamente, espiritualidade e otimismo.
Ainda, não é apenas o “significado” das tonalidades que importa, mas sua repetição. Tudo é muito roxo e amarelo; as paredes, os objetos do cenário, os uniformes, a embalagem da comida, o mundo inteiro — até a fotografia é meio amarelada (não tanto quanto o infame “filtro mexicano”). O que quero dizer com isso? No Inferno não há cor; no Purgatório, as almas conseguem contemplar um vestígio dessa luz, mas ainda não estão totalmente nela. Há cor, mas não pode haver tanto assim; a abundância é reservada ao Paraíso. O roxo e o amarelo são apenas vislumbres do que aguarda os personagens no futuro. A possibilidade da luz é admitida mas não plenamente concedida; a conceção total é reservada apenas para o Paraíso.
Paraíso, este, que Dante eventualmente chegará, após completar sua jornada psicológica. Há um momento emblemático no filme que o faz perceber o que deseja de sua vida: quando ele admite seus sentimentos por sua chefe Becky (Rosario Dawson). Essa constatação faz com que Dante recalcule seus próximos passos e ajuste sua trajetória em direção ao Paraíso. Qual seria o melhor lugar para esse momento, então? Uai, óbvio, no telhado do Mooby’s! Voltemos à geografia do Purgatório: uma montanha com nove andares, cada nível mais próximo do Paraíso, sendo o topo o Jardim do Éden. Então, o lugar que dá o estalo em Dante para que ele entenda como ascender é, justamente, o mais próximo fisicamente do Paraíso; é o topo. O telhado sujo e fedido à óleo de batata frita do Mooby’s é o seu Jardim do Éden.
Agora, então o que vem depois? Bom, não espere harpas, nuvens e uma luz branca estourada tomando conta da tela. O Paraíso aqui é mundano. Menor, quase ridículo, se comparado à grandiosidade teológica de Dante Alighieri. Mas ainda assim, um paraíso. Porque, no fim das contas, a ascensão de Dante não busca transcendência espiritual, mas controle material. O Paraíso que a dupla chega no final não é um reino espiritual no céu — ele está na terra, exatamente onde sempre esteve: no balcão da Quick-Stop.
Existe uma ironia bonita nisso. Dante retorna, de maneira diferente, ao espaço que antes era seu Inferno. O lugar que no primeiro filme era palco de um ciclo de sofrimento repetido se converte no epicentro da realização emocional do protagonista. Ou seja, o Inferno não era a Quick-Stop em si, mas a incapacidade de Dante de se posicionar diante da própria vida. Por isso a lógica de expurgação interna do Purgatório de Alighieri é tão importante: é necessária para mudar a relação do sujeito com o espaço. A montanha continua sendo uma montanha; o balcão continua sendo um balcão. Agora, entretanto, há ação e vontade genuína de estar ali.
Não é à toa que, para alcançar esse “paraíso”, Dante precise passar por um último gesto de destruição: abandonar um casamento sem amor, rompendo com a vida que estava “pronta” para ele e recusando a promessa de uma felicidade pasteurizada. No fim, se as versões de Smith do Inferno e do Purgatório são locais banais, faz sentido com que O Balconista 2 resolva sua equação moral de forma, também, banal: dois caras compram uma loja e continuam trabalhando atrás de um balcão. Nada muda ao mesmo tempo em que tudo muda. Depois de atravessar o Inferno e o Purgatório, Dante não precisa de muito mais do que isso; só o que ele precisava era, finalmente, tomar uma atitude.