O Balconista (1994), dirigido por Kevin Smith, é uma comédia que acompanha um dia na vida do jovem Dante (Brian O’Halloran). O garoto trabalha numa loja de conveniência contígua a uma locadora de VHS. Nesse espaço adjacente atua Randal (Jeff Anderson), seu melhor amigo. Os dois compartilham o tédio, a irritação diante dos clientes e a compulsão por debates triviais — sobre filmes e mulheres — enquanto torcem para chegarem ao fim do dia.
No dia em que assisti ao filme fiz uma sessão dupla. Antes, vi Barrados no Shopping (1995), também de Kevin Smith. Eu estava de ressaca, entregue a uma certa lassidão física e mental, e buscava uma comédia leve para ver. Barrados no Shopping cumpriu o propósito, e cumpriu bem, devo acrescentar. A curiosidade, contudo, é uma força mais persistente do que a preguiça. Fui pesquisar sobre os outros filmes de Smith e descobri que muitos deles habitam o mesmo universo, chamado View Askewniverse, com locais e personagens que transitam de uma obra a outra como velhos conhecidos — mais surpreendente ainda, dois deles, Jay e Silent Bob, tem suas próprias skins em Call of Duty! Impulsionado pelo interesse em conhecer mais daquele universo, escolhi ver O Balconista. A escolha parecia lógica — cronologicamente, ele se passa no dia após Barrados no Shopping. Imagine, então, minha surpresa ao descobrir que o filme é uma adaptação de O Inferno (1304) de Dante Alighieri!
Admito, “adaptação” pode ser um termo muito forte; carrega consigo a expectativa de fidelidade, que evidentemente não está em jogo. “Inspiração”, “referência”, o que seria melhor? No fim, tanto faz tanto fez, chame do que quiser. Talvez — ênfase no “talvez”, pois estou meramente conjecturando (fonte: não foi preciso) — “adaptar” tal livro tenha sido uma escolha condizente com o momento da vida do diretor. O Balconista foi seu filme de estréia, e o responsável por catapultar sua carreira. Smith, antes do filme, era apenas um jovem sonhador e ávido colecionador de quadrinhos. Para filmar O Balconista, o homem vendeu sua extensa coleção e angariou dinheiro para uma câmera barata; a loja de conveniência onde o filme se passa era o lugar onde o próprio trabalhava. Smith abria mão daquilo que mais amava e arriscava tudo (incluindo seu trabalho) por um sonho. Se Dante desce ao inferno para ascender ao céu, Smith parece ter atravessado seu próprio inferno pragmático — percorrendo o fogo da precariedade e da incerteza — para conceber sua carreira e ascender ao céu do estrelato.
O dinheiro que conseguiu reunir — complementado por pequenas dívidas que denotavam o risco imprudente — foi o suficiente para uma câmera mequetrefe. O aparelho filmava em preto e branco e com pouca qualidade. Não foi exatamente uma escolha artística, tá mais para uma contingência material, uma consequência da vida; mas é interessante perceber como este acaso do destino agregou positivamente no aspecto formal da obra.
Dante — o personagem, não Dante Alighieri, embora a referência nominal não seja inocente — perpassa seu próprio inferno particular. A loja, claustrofóbica — pequena, acumulada, com tudo empilhado, nem as janelas funcionam. Os clientes? Um com menos noção que o outro; cada interação é um teste de paciência. Seus relacionamentos são uma tragédia; Dante não nutre sentimentos por sua namorada atual e acabou de descobrir que sua ex vai se casar. O melhor amigo e colega de trabalho mais atrapalha do que ajuda. E o pior de tudo? Nem era pro Dante trabalhar hoje! Era seu dia de folga, e teve que vir cobrir um colega que faltou — e, ao fazer isso, sacrificou um compromisso pessoal importante.
Se é possível vivenciar o inferno na terra, talvez essa seja uma de suas manifestações mais fidedignas. Nesse sentido, as limitações técnicas provenientes da câmera barata acabam, meio que sem querer, reforçando essa perspectiva. Aquele mundo que já é conturbado, fica pior. O ambiente se enclausura ainda mais, as coisas ficam excessivamente claustrofóbicas e opressivas. A nitidez reduzida produz uma leve aspereza visual que casa com o mal-estar moral do protagonista. Não há cores, há pouca definição. Cores são, costumeiramente, associadas com emoções. Cores vibram, brilham, insinuam desejo e possibilidade; não é tão impossível imaginar o inferno sem cor então, é?
Enquanto em Barrados no Shopping a mise-en-scène é mirabolante — movimentos constantes, ritmo frenético, muitas coisas acontecendo no mesmo quadro —, em O Balconista ela se retrai para algo mais parecido com um naturalismo. A câmera se aquieta, se aproxima e provoca intimidade, a montagem é mais sossegada. Mas, há algo que une os dois filmes (além de se passarem no mesmo universo): o caos.
O inferno de Dante se renova a cada hora do turno; quanto mais o dia passa, mais as coisas fogem do controle dele. Clientes enchem o saco com pedidos cada vez mais bizarros, o amigo folgado fica ainda mais irresponsável, os relacionamentos amorosos se complicam. Não há um grande evento que desorganize o mundo, é uma sequência de absurdos que, somados, produzem colapso. De uma cena pra outra, as coisas pioram exponencialmente. É tudo um completo caos, um grande empilhamento de desastres e decisões erradas.
“Empilhamento”, aqui, sendo a palavra-chave. Caso você não esteja familiarizado com a obra de Dante Alighieri, o inferno que o poeta do século 14 descreve é, também, um empilhamento — porém, geográfico. Círculos sobre círculos, dispostos verticalmente, cada qual destinado a uma modalidade específica de pecado (imagine algo semelhante à andares de um prédio). A descida é gradativa: quanto mais profundo o círculo, mais grave o crime e mais severa a punição. Em O Balconista, essa organização reaparece. O filme se divide em capítulos — inclusive, alguns com nomes sugestivos, como “Lamentações” e “Purgação”.
Tal como o poeta florentino progride por círculos cada vez mais sombrios, o Dante contemporâneo — o balconista — atravessa episódios progressivamente mais absurdos. A cada novo capítulo, o caos se intensifica. No fim, a estrutura é quase uma antologia de esquetes. Cada segmento possui uma certa autonomia; alguns até tem continuidade narrativa com outros, mas nem todos. Independentemente da continuidade, todos agrupam eventos exclusivos deles, progressivamente mais caóticos e cômicos, que acrescentam uma nova camada ao mal-estar geral
A divisão em capítulos acaba sendo também uma solução formal elegante para lidar com as elipses do filme. Afinal, a obra se passa ao longo de um dia inteiro; começando no início da manhã e acabando no final da noite. Ok, as coisas na loja de conveniência são caóticas, mas não são caóticas 24 horas do dia. Nem todo minuto de um turno é dramaticamente fértil. Há intervalos em que o trabalho é apenas… trabalho. Repetição, espera, burocracia. Momentos, estes, que poderiam não colaborar com a experiência estética que o filme busca promover. Ou seja, as transições entre os capítulos (episódios, círculos, ou como queira chamar) possibilitam ao filme saltar sobre os instantes de tédio proletariado, avançando diretamente para aquilo que intensifica o estado infernal.
Em suma, O Balconista transporta seu protagonista para o inferno. Tudo que poderia acontecer em um dia ruim, acontece. Dante não tem outra saída senão caminhar por todos os círculos; a perspectiva do céu reside no fim do expediente. Nós o acompanhamos nessa descida episódica; entretanto, a travessia caótica pelo submundo não provoca, exatamente, um mal-estar no espectador. Paradoxalmente, o caos que para ele é opressivo, para nós é leve. A sucessão de desastres produz comicidade; o inferno mediado pela forma torna-se até mesmo prazeroso. Que bom! Se o inferno existir e eu acabar por lá, espero que seja assim.