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Sam Raimi é um dos diretores mais importantes do cinema de terror moderno, especialmente quando o assunto é a abordagem mais frontal do gênero, sem escrúpulos. Porém, seus trabalhos em longa-metragem ficaram mais escassos nos últimos anos e estavam presos a amarras de propriedades intelectuais de grandes estúdios, como o mais recente Doutor Estranho no Multiverso da Loucura (2022), que é divertido mas não chega perto de ser uma obra corajosa como Raimi costumava fazer.

Eis que o primeiro filme de 2026 ao qual assisto já me traz uma bela surpresa: aquele completo maluco que dirigiu o divertidíssimo Arraste-me para o Inferno (2009) estava de volta com Socorro! em mais uma dessas sátiras sociais de luta de classes que tanto me incomodaram nos últimos anos. Uma funcionária solitária e constantemente humilhada pelos seus superiores aceita embarcar em uma viagem com seu chefe abusivo para a Tailândia, visando uma promoção. No caminho, o avião acaba sendo atingido por uma tempestade e ambos são os únicos sobreviventes em uma ilha deserta.

E o que distingue esse novo longa de Raimi de trabalhos mais duvidosos como Triângulo da Tristeza (Östlund, 2022) e Pisque Duas Vezes (Kravitz, 2024), além de sua já costumeira insanidade violenta que comentarei mais adiante, é justamente uma falta de sisudez temática. Os filmes contemporâneos que vêm abordando o tema, por mais absurdos que sejam em suas premissas, acabam se levando demasiadamente a sério, como se achassem estar revolucionando a forma como isso é tratado nas telonas. Ainda são sátiras, mas são cínicas e autoconscientes demais para o seu próprio bem, e em uma necessidade cada vez mais vexatória de apelar para referências e tiradinhas extraídas dos poços mais insuportáveis das redes sociais.

Raimi, por sua vez, liga pouco para isso e se importa muito mais em dar a sua assinatura para o projeto em uma narrativa que constantemente assume o ridículo sem esvaziar sua pauta. Muito pelo contrário! O realizador usa do tratamento formal e da estrutura de seu filme para expressar suas ideias, não apenas no discurso de seus personagens. Em um momento, por exemplo, Socorro! praticamente repete a ideia que Zoë Kravitz buscava transmitir quando o personagem de Channing Tatum pedia desculpas inúmeras vezes no clímax de seu filme já supracitado. Aqui, no entanto, a ideia é muito melhor expressada por conta de como o joguinho psicológico entre Linda (Rachel McAdams, fantástica) e Bradley (Dylan O’Brien) é desenvolvido ao longo da trama.

Nesse ponto, vale destacar o quanto O’Brien foi a escolha perfeita para o papel, já que o ator é mestre em evocar simpatia por seu olhar gentil e Bradley é o típico milionário mimado sem grandes talentos que usa dessa sua lábia de bom moço para conseguir o que quer. Nesse contexto, é até inteligente como o diretor parece nos conduzir a uma comédia romântica meio “enemies to lovers” (de inimigos para amantes) para puxar nosso tapete logo em seguida. Linda não deve confiar em Bradley e, assim como Raimi depois de assumir IPs de terceiros, aos poucos precisa se liberar das amarras da submissão, sobrevivendo a partir das dicas que pegou de um reality show. Novamente, desprendimento é a chave.

Ao reconhecer que toda a situação de jogo virado construída aqui é absolutamente distante de qualquer realidade material, Raimi usa de seus signos do horror trash oitentista para assumir completamente a postura de fantasia, desde os efeitos digitais bem aparentes que são usados para potencializar a violência e a escatologia (o trecho do javali é ótimo) ao uso excessivo de sangue falso na maquiagem para mostrar um acúmulo de violência dentro daquela dinâmica. Até mesmo o desfecho, também muito parecido com aquele do filme de Kravitz, soa tão artificial que parece só uma punchline de uma grande piada que em momento algum foi prepotente o suficiente para se levar mais a sério do que deveria.

Socorro! é o bom e velho Sam Raimi de volta aos tempos áureos.