O TEXTO A SEGUIR CONTÉM SPOILERS LEVES!!!

“Há uma ponte chamada Sirât que conecta Céu e Inferno. Aqueles que a cruzam são avisados que a passagem é mais estreita do que um fio de cabelo, mais afiada do que uma espada.” Essa citação é do letreiro inicial que contextualiza o título do filme Sirât, do cineasta franco-espanhol Oliver Laxe. Tal frase promete, assim, um simbolismo em relação à jornada do pai de família Luis e seu filho Esteban em busca de sua filha/irmã no deserto do Marrocos, depois de uma caótica festa rave regada a drogas e música eletrônica incessante.

O que se segue é um road movie fora dos padrões mais episódicos de Hollywood e, portanto, sem o mesmo problema que os assola: a falta de coesão. Ok, temos um filme bastante coeso que promete uma odisseia pelo deserto. Mas para quê? Qual é a ideia que move Laxe na forma como conduz o filme? O que o diretor quer transmitir com essa jornada atribulada e, muitas vezes, até brutal? O que o constante grave das batidas eletrônicas da trilha sonora representa? Ao quê, exatamente, a relação com a tal ponte do Céu para o Inferno realmente quer remeter?

Eu não sou muito a favor desse fascínio por interpretações e hiperracionalizações por parte dos espectadores e acho que isso muitas vezes cai em um vício que beira obviedades pseudo-intelectuais. Porém, a partir do momento que uma obra opta por abrir a projeção com uma mensagem como essa, há de se esperar que essa jornada tenha algo a mais. Porém, logo quando os créditos finais de Sirât passaram pela minha tela, tive uma conclusão sobre isso: Laxe não tem ideia alguma para transmitir com seu longa-metragem. Nem tematicamente, nem de forma sensorial. Seu filme está muito mais interessado em ser incômodo e chocante apenas por ser.

Mas o que acontece quando uma obra que é feita para doer consegue apenas anestesiar o público? Em uma progressão narrativa que mira na estafa mas acaba atingindo o completo tédio, Laxe basicamente se repete. De novo, e de novo, e de novo. Os mesmos planos, as mesmas panorâmicas desérticas com o Sol ou a Lua em vigília, as mesmas noites fechadas cujo único ponto de iluminação é o farol do ônibus dos viajantes, a mesma batida eletrônica na trilha sonora que visa desorientar mas acaba por dessensibilizar. Eu estaria mentindo se dissesse que o cineasta não consegue evocar a grandiosidade inclemente do deserto marroquino e, até por isso, ganha alguns pontinhos a mais na minha percepção. O problema é que isso não sustenta um filme inteiro. Em especial, um filme que parece almejar algo a mais.

E é aí que mora meu maior incômodo com Sirât. Se Laxe se contentasse com uma experiência sensorial desértica que soa como uma derrocada perigosa a uma espécie de Inferno pessoal de seus protagonistas, seu trabalho poderia funcionar muito mais. Basta olhar o exemplo de Mad Max: Estrada da Fúria (Miller, 2015). Porém, há um mote racional e um comprometimento inflexível com o realismo, além de uma tentativa (se é que posso chamar assim) de contextualizar sua trama no meio de uma guerra que ocorre em meio àquela região da África Setentrional. Tal contexto, contudo, serve apenas para gerar mais obstáculos aleatórios para seus protagonistas, como a fiscalização de militares e um campo minado. Em um período em que países islâmicos se encontram em total desvantagem contra forças israelenses e ianques, fica parecendo que Laxe quis dar uma suposta relevância ao seu filme para, novamente, dar-lhe um significado inexistente.

Para além disso, Sirât é aquele looping formal que já apontei e, até quando depara-se com um momento mais à flor da pele, acaba arregando para um lugar comum que esvazia completamente o peso emocional daquele acontecimento pela forma como a edição o banaliza e perde qualquer noção de timing dramático. Uma enorme baboseira disfarçada de “filme de arte” provocativo para agradar votante tecnicista da Academia e dos grandes festivais. Que palhaçada!