Este talvez seja o filme mais emblemático feito na cidade de São Paulo e certamente está no panteão sagrado entre os mais importantes do cinema brasileiro (quiçá, do mundo). Tive a oportunidade de assistir ao longa pela primeira vez no 58º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, onde foi exibida a cópia restaurada em 4K – resultado de uma parceria entre a Cinemateca Brasileira e a Cineteca di Bologna, com apoio da família do cineasta e financiamento do programa World Cinema Project, da The Film Foundation. É um daqueles casos em que o prestígio e a valorização da obra é completamente justificável, pois não é nada menos do que fantástica.

Logo na primeira cena do filme vemos a briga de um casal através do vidro da varanda, que por sua vez reflete os arranha-céus da cidade de São Paulo – o que teria motivado a discussão? – Eis que a câmera gira revelando a skyline da cidade, em seguida os prédios opressivos vistos de baixo para cima e mais uma sequência mostrando os trabalhadores no transporte público e a metrópole vista de cima enquanto uma música soturna toca durante os créditos. Se o título do filme, São Paulo, Sociedade Anônima, já não fosse uma denúncia clara da temática, o diretor Luiz Sérgio Person revela nestes primeiros minutos: a São Paulo da época, à beira de uma massiva industrialização, espalha-se e ergue-se nas costas de uma superpopulação automatizada.

A representação deste trabalhador consumido pela padronização desta sociedade é Carlos (Walmor Chagas), a quem acompanhamos por quatro anos, entre amores e mudanças profissionais, até culminar na discussão do início e suas consequências. Na vida amorosa, a montagem não linear nos revela um protagonista mulherengo, hedonista, que pouco se importa com as pessoas ao redor e fala o que pensa sem rodeios, mesmo que possa parecer grosseria. Enquanto isso, no trabalho, Carlos encontra emprego na indústria automobilística, que proliferava na cidade, e é filmado em uma linha de produção ou em um escritório com janelas gradeadas.

Não demora muito para que Carlos seja levado a seguir a cartilha de bom cidadão na metrópole. Ele busca um emprego melhor, com mais autonomia e salário alto, busca uma esposa modesta de boa procedência para que possa construir uma família e morar em um bom apartamento em um andar alto da cidade. Mas ainda assim recorda do tempo com outras duas mulheres: Hilda (Ana Esmeralda) e Ana (Darlene Glória). Enquanto Ana é jovem, sexy e impulsiva, Hilda é culta, elegante e apaixonada, ambas parecem muito com Carlos, seja por não querer compromisso e ter interesse em dinheiro ou por tratar a relação entre eles de maneira pragmática e passageira. Portanto, a moça que, no fim das contas, se enquadra no padrão de esposa é Luciana (Eva Wilma), discreta, inteligente, apesar de ingênua, e que busca um relacionamento sólido.

No entanto, ao assumir a vida de casado, Carlos não sente conexão com a esposa como tinha com as outras mulheres, especialmente com Hilda – que por sua vez sucumbe ao luto e ao isolamento da cidade. O protagonista também não tem amigos, o mais próximo disso é seu chefe, Arturo, porém muito mais do que uma conexão genuína, a relação entre os dois é de conveniência e regada pela inveja pelo descaso do colega pela ética profissional e do matrimônio – no fim ele sim tem dinheiro (ou crédito) e liberdade, almejados pelo protagonista, do mesmo modo em que mantém as aparências seguindo a cartilha imposta pela sociedade.

Carlos, portanto, chega em um ponto de não retorno, e assim voltamos à discussão do início. Com um trabalho de que não gosta, sem real conexão com as pessoas ou até hobbies e interesses – sabendo cantar apenas duas músicas, sendo uma delas o hino da bandeira – ele desiste de São Paulo, mas a cidade não permite que ele se livre tão facilmente dela.

Em um filme que mistura o experimental e a não-linearidade da narrativa no começo, mas com o passar do tempo se adequa à forma clássica como Carlos, Luiz Sérgio Person desenha uma história, ainda atual, de como o capitalismo molda o ser humano tirando-lhe a identidade e a expressão individual, para colocar todos em uma prisão de solitude e conformidade, onde a cidade de São Paulo é o símbolo máximo.