A adaptação de um romance francês homônimo, escrito por Jean-Christophe Rufin, começa com a francesa de meia idade Catherine, em luto pela morte recente do pai, desembarcando no Recife para encontrar a irmã, que é casada com um brasileiro rico. Logo a reconexão entre as duas se perde, pois Catherine sente que não pertence ao mundo de luxo pretensioso da irmã e se recolhe para dentro do luto novamente. Eis que um dia na praia ela conhece Gil e, mesmo com a barreira linguística, ele a cativa o suficiente para que ela resolva encontrá-lo em uma boate. Assim ela se deixa envolver pelo jovem e os dois iniciam um romance.
À primeira vista o filme parece que será um drama romântico de superação do luto e busca de novos significados para a vida, no entanto a trama segue mais para uma tentativa frustrada de thriller erótico com subtexto social. As cenas de sexo são bem cruas, não sensuais, e é bem notável que parte de experiências masculinas, mesmo com o ponto de vista sendo da personagem feminina. Em determinado momento a cena é toda filmada em plano aberto, de forma burocrática como a transa ali, onde não há intimidade ou paixão, apenas um certo desespero por parte dela. Há alguns momentos bons entre o casal, todavia, como na cena em que eles conversam sobre a casa de festas, cada um com seu idioma, mas mesmo assim se entendem.
A questão social também parece perdida. Gil é um bartender negro, que ainda trabalha para a mesma família que sua mãe e é usado pelo chefe também fora do horário para outras tarefas, o que faz com que Catherine fique com pena e tente ajudar o rapaz a alcançar uma condição melhor. Aqui entram várias questões, desde a síndrome de salvadora branca da protagonista, até a exploração de corpos negros para prazer. Porém a conversa fica apenas numa luta de classes superficial, em que a classe dominante, no final das contas, acaba sendo a correta em seus preconceitos. Nisso toda a narrativa sobre luto e conexão também se perdem.
Com a barreira de idioma entre o casal, as escolhas visuais da direção é que contam realmente a história, mas muita coisa que deveria ser compreendida pelas entrelinhas acaba não sendo. Por exemplo, a passagem do tempo: o filme por vezes parece se passar em menos de uma semana, e em outros momentos parece que mais tempo se passou. Poderia ser reflexo de uma confusão da própria personagem — bem como não sabermos as reais intenções de Gil e do chefe —, entretanto as intenções não são claras, o que torna a direção rasa. A salamandra no misticismo é um elemental do fogo; fogo esse que falta na química entre os dois protagonistas, mas em compensação aparece de forma literal no filme.