Profissionais do Sexo: Representações dos Trabalhadores Sexuais nno Cinema
A vitória de Anora na categoria de Melhor Filme do Oscar, em especial a conquista de Mikey Madison como Melhor Atriz, abriu as portas para o esgoto da internet, principalmente entre progressistas, revelando o nível baixíssimo a que alguns estão dispostos a descer por causa de torcida cega. Em meio a críticas bem fundamentadas sobre o male gaze e a abordagem do diretor em relação ao tema da prostituição, muitos usam essas questões apenas para desvalorizar o filme, argumentando que, por esses motivos, ele não mereceria tal prêmio.
Além de questionar por que a indústria cinematográfica dos Estados Unidos escolhe premiar determinadas obras (um tema para outra discussão), o objetivo aqui é destacar como os trabalhadores do sexo são personagens centrais no cinema desde seus primórdios, com diversas obras notáveis que exploram as múltiplas facetas dessa profissão.
É importante ressaltar ainda que, em uma era em que plataformas como OnlyFans podem sugerir o contrário, o trabalho sexual continua estigmatizado e é uma consequência direta do capitalismo — que o transforma em uma suposta alternativa de independência financeira, mascarada como emancipação.

Noites de Cabíria
O longa narra a história de Cabíria, uma prostituta da cidade de Roma que está sempre em busca de um verdadeiro amor e uma vida de felicidades fora de sua vida de dificuldades. Durante suas noites de trabalho, ela experiência uma série de rápidos relacionamentos frustrados, mas sem nunca perder sua esperança de uma vida melhor, uma busca por dignidade de uma mulher largada a beira de uma sociedade, mas que nunca perde seu orgulho e sua gentileza. Fellini explora a tragédia pessoal do povo italiano do pós-guerra, onde o cenário político e social de seu país se reflete em sua personagem.

Confissões Íntimas de uma Cortesã Chinesa
Após ser vendida para um bordel e se tornar vítima de todo o tipo de violência, a jovem Ainu passa a usar sua beleza como meio de seduzir e enganar aqueles que a fizeram mal, para, então, poder se vingar. Apesar do tema e de certas escolhas questionáveis comuns à época, o tom exagerado do filme e o gênero wuxia o tornam mais divertido do que sofrido. Ainu usa a maneira como os homens a subestimam para fingir inocência, ao mesmo tempo em que planeja as mortes de seus violadores, e luta com quem se coloca em seu caminho. Há um contraponto interessante entre a aparente delicadeza feminina, representada pelos tons pasteis nos cenários e figurinos do bordel e das cortesãs, com a ira e brutalidade de que as mulheres são capazes.

Maîtresse
Olivier, um ladrão, invade a casa de Ariane, uma dominatrix. Entretanto, o homem desenvolve uma paixão improvável por ela, e constantemente retorna para vê-la e, ocasionalmente, participar de seu trabalho. Maîtresse é um jogo de dominação. Ariane tenta dominar todas as áreas e pessoas da sua vida. O controle que ela exerce aumenta ainda mais a curiosidade e o erotismo latente que vem do não-saber. Ela e Olivier são corpos repletos de segredos que se atraem como ímãs ao toque e a sedução. Um filme que não tem como acabar de outra maneira que não o sexo.

Garotos de Programa
Mikey é um jovem pobre que sofre de narcolepsia e se prostitui nas ruas de Portland para sobreviver. Seu amigo Scott, por outro lado, é filho de um milionário, e vive com os marginais apenas para se rebelar contra seu pai. A prostituição no filme é mostrada como um trabalho, em geral, enfadonho (embora sejam mencionados alguns perigos e violências comuns àqueles nessa situação de vulnerabilidade). Esse contexto enfatiza a temática do filme de não se ter controle sobre o próprio corpo. Podemos ver isso de forma literal quando Mikey desmaia e precisa dos cuidados de terceiros; e de forma figurativa através da relação de Scott com seu pai, que espera que ele aja igual aos outros ricos, independente de suas vontades pessoais.

Falsa Loura
Silmara, uma jovem operária de uma fábrica na periferia de São Paulo, busca, com suas amigas e colegas de trabalho, aproveitar os raros momentos de lazer para escapar de uma vida marcada pela precariedade. Numa noite, elas decidem ir ao show de uma banda famosa. Lá, Silmara se envolve com o cantor e, posteriormente, é contratada como acompanhante de luxo de outra celebridade, alimentando nela uma expectativa de ascensão social. Trata-se de uma obra sobre as frustrações de uma mulher que, ao crer estar vivendo um sonho de liberdade ou um conto de fadas, descobre-se reduzida a objeto descartável, enfrentando a inevitabilidade da exploração, mesmo consciente de seu valor e de que merece mais.

Tangerina
Sean Baker, em mais uma de suas fábulas tortas do capitalismo, segue duas prostitutas trans que trabalham em Hollywood. Uma delas acha que seu namorado (e cafetão) a está traindo com uma mulher cis, enquanto a outra começa um caso inusitado com um taxista armênio. Popular no cenário independente por ser inteiramente filmado com um iPhone 5S, Tangerina é uma dramédia deliciosa, que evoca uma melancolia patente mas também retrata um afeto inigualável em um mundo que parece ter aversão a esse tipo de sentimento em prol da sobrevivência. O final, em uma lavanderia, é desses momentos que ficam carimbados na memória.

As Golpistas
Já imaginou O Lobo de Wall Street (Scorsese, 2013) reverso? Trabalhadores comuns dando golpe naqueles que provocaram uma crise financeira? E se tais trabalhadores fossem strippers? Após a queda da Bolsa em 2008, um grupo de strippers nova-iorquinas planeja golpes em seus clientes, majoritariamente ricaços dos escritórios de Wall Street, até que esse “projeto” começa a dar errado. Scafaria conta esses fatos reais a partir de uma dramédia dinâmica, que aborda a temática central tratando de assuntos como sororidade, feminilidade e a realidade marginalizada do trabalho sexual em contextos extremos da história estadunidense.