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Jamais deixarei de admirar Steven Soderbergh como um artista. Afinal, começando sua carreira no fim dos anos 1980, sua ascensão no cinema independente da década seguinte foi inusitada e, daí para frente, sua carreira surpreende a cada obra lançada. Gostando ou não dos resultados, o cineasta não se acanha em explorar novos ares, desde a refilmagem de um clássico de Andrei Tarkovsky até um épico de duas partes sobre a vida de Che Guevara, passando por uma trilogia bem comercial de filmes de assalto, um filme sobre strippers masculinos ou um neo-noir erótico e provocador.
Dito isso, chega o momento em que Soderbergh decide desconstruir o subgênero do terror que tem como foco casas mal-assombradas. Seguindo, com uma câmera subjetiva, o ponto de vista de uma presença que habita a nova casa da família Payne, seu novo filme não demonstra interesse no terror da situação. Ao ser contado sob a perspectiva da misteriosa força espectral, o longa não a encara como uma ameaça pois nos deixa saber exatamente o que está fazendo, embora não exatamente o porquê de suas ações. Ao longo da curta duração do filme, acompanhamos as dificuldades da relação matrimonial entre os pais (Lucy Liu e Chris Sullivan), a arrogância adolescente do popular filho mais velho (Eddy Maday) e o luto da filha mais nova (Callina Liang) após perder sua melhor amiga para uma morte misteriosa.
Se toda a ideia da premissa de Presença soa interessante, não posso dizer o mesmo da execução de Soderbergh a partir disso. Em uma abordagem que lembra vagamente o excelente Sombras da Vida (Lowery, 2017), há uma indecisão no tom e na construção de uma proposta narrativa que, de fato, perdure e seja coerente até o fim. Na verdade, a impressão que eu tive com Desconhecidos (Mollner, 2023) – cuja crítica lançamos nos últimos dias aqui na Revista – se repete aqui: a de que o filme é construído puramente para algumas revelações finais e que todo o caminho até elas serve apenas para dar pistas ou exposição.
Senti uma preguiça e uma falta de criatividade imensa na exploração formal da câmera subjetiva, resultando em uma estética de found footage burocrático em que planos comuns e sem expressividade de uma decupagem televisiva são recriados a partir dessa suposta subjetividade fantasmagórica. Transições secas com o uso de tela preta, uma iluminação sempre tímida e um tratamento de cores que torna tudo extremamente trivial, todas as escolhas imagéticas aqui parecem mirar em uma espécie de “realismo independente compulsório”, que o cinema atualmente adora justamente por dar uma estética mais genuína para certos projetos.
Porém, há um elemento importantíssimo que parece que jamais foi considerado pelos realizadores: com a revelação final, vemos que toda essa história se baseia em afeto, em sentimentos fortíssimos dentro de uma estrutura familiar tradicional, mas problemática. Com isso, toda essa abordagem fria e pragmática de Soderbergh parece negar a natureza de seu filme. Por exemplo, os mesmos elementos que funcionavam no ótimo O Assassino (Fincher, 2023) não funcionam aqui porque as propostas são completamente diferentes, quase opostas. E um certo conflito final também destoa de toda essa abordagem, como se esse filme que se julga tão experimental e paciente em uma pretensa construção dramática, de uma hora para outra, sentisse a necessidade de incluir um clímax intenso, resultando em uma progressão totalmente artificial.
Presença, portanto, é o filme que mais me decepcionou da carreira insanamente plural de Soderbergh. Uma premissa interessante, com algumas ideias relativamente originais, mas que, na experiência, não parece ter muito a dizer ou a oferecer. Um filme vazio, sem charme, sem afeto, sem conexão, sem presença!