ESTE TEXTO CONTÉM SPOILERS GRAVES!!!

Ultimamente, o cinema de gênero (e até além) vem sendo muito acusado de ser “lacrador”, “woke” e outras expressões irrelevantes e reducionistas da galera mais reacionária. Mas o fato é: pautas sociais mudam o cenário cultural de qualquer época, goste ou não. A partir disso, novas tendências narrativas vão surgindo e muitas delas se repetem à exaustão, inclusive na forma como são abordadas. Como alguém que acredita que muita coisa no mundo se move de maneira pendular, acho que surgirá, em breve, uma “contra-tendência”, que usará certos clichês da abordagem de pautas sociais como subversão de expectativas. E, em meio a alguns poucos exemplos já existentes, Desconhecidos se destaca nesse ponto, tanto para o bem quanto para o mal.

Partindo de uma estrutura não-cronológica que embaralha seis capítulos, o filme acompanha uma perseguição mortal entre um homem e uma mulher pelas montanhas do estado de Oregon, EUA. Ao iniciar no meio do caos, vemos o personagem de Kyle Gallner (nomeado pelos créditos de “O Demônio”) caçando a mulher vivida por Willa Fitzgerald (nomeada como “A Dama”) com sua enorme escopeta. O diretor JT Mollner conduz o público a aceitar um senso comum desse tipo de suspense: o homem é o psicopata e a mulher é a donzela em perigo. Isso nem se baseia apenas em uma tendência pós-moderna, já que os slashers trabalham com essa dinâmica de poder desde os anos 1970.

Porém, a forma como Mollner manipula a relação entre os dois no momento em que se conhecem incorpora uma abordagem pós-moderna discursiva até demais — ao ponto de incomodar. Sob um letreiro de um motel em neon roxo, a mulher expressa seus temores ao parceiro na dinâmica desigual dos gêneros em um contexto sexual, em uma cena que parece servir mais como estilo e discurso redundante do que como qualquer outro fator narrativo. Outros elementos que parecem evocar certa insegurança do cineasta com a sua própria ideia estrutural são o texto narrado no começo — como se emulasse um programa sensacionalista de true crime dos anos 1980 — e as alcunhas dadas aos dois protagonistas — encarando Gallner como o vilão demoníaco e Fitzgerald como a dama indefesa. Mollner não parece confiar na força de suas imagens para conduzir as suspeitas do espectador; ele precisa inserir pistas para tornar suas intenções mais óbvias.

É claro que, depois da reviravolta, fica nítido que o “Dama” vem do apelido dado à assassina de Fitzgerald pela mídia, enquanto o “Demônio” se justifica pelas visões satânicas da personagem sempre que sua mente a conduz a matar alguém. Mas, mesmo assim, expor esses “nomes” logo nos créditos iniciais parece fragilizar a brincadeira estrutural, e com potencial de uma perspectiva superinteressante, que o diretor propunha. O que nos leva ao ponto mais incômodo do longa: ele parece movido apenas pela revelação central de que a Dama é a verdadeira serial killer. A partir do momento que Mollner nos apresenta essa informação, o longa se perde na própria construção; como se a narrativa fosse abandonada e o filme buscasse uma forma minimamente satisfatória de ser concluído.

Isso fica ainda mais evidente na pavorosa cena em que a assassina se faz de vítima de estupro para ser acolhida pelos policiais — sequência essa que parece mais zombar do tratamento empático às vítimas de abuso sexual do que fazer qualquer subversão. É um momento em que Mollner parece garantir ao seu público que seu filme não é “woke”, mas sim que satiriza essa postura; que ele julga ser mais comum do que realmente é. E o fato de botar uma policial novata para ser xingada de “vadia burra” pelo seu superior me faz questionar o quanto todas as escolhas desse momento não são frutos de uma enorme misoginia velada, que encara mulheres como profissionais idiotas ou como psicopatas traiçoeiras.

Acertando ao, pelo menos, garantir um fim memorável para a excelente performance de Willa Fitzgerald, Desconhecidos não parece ter uma ideia que vá além da preparação da surpresa. Sua encenação, colorida e granulada, parece fruto de uma tendência vintage (o filme chega a avisar que é filmado em 35mm) que vem se popularizando no cinema independente americano, mas que nada oferece além de firula visual. Na verdade, soa até contraditória e isso resume bem o que JT Mollner conquista aqui: um suspense que quer ser muito estiloso e “anti-woke”, mas, no fim, só consegue ser uma tentativa patética de chamar atenção. Ao menos o elenco segura muito esse tranco… até onde dá!