A primeira cena de Pobres Criaturas desenha, brevemente, a estética do pequeno universo satírico que Yorgos Lanthimos constrói até que a ausência de cor toma conta de sua câmera, momento esse em que nos é mostrado o fim de uma vida que culmina no nascimento de uma pequena criaturinha curiosa, batizada por seu criador com o nome de Bella Baxter. A protagonista é introduzida como uma mulher adulta portadora de um comportamento estritamente infantil, sendo constantemente tratada como uma criação científica e gradualmente oprimida pelas figuras masculinas que a cercam, um estado de existência que gera uma ânsia de descobrimento por parte de Bella, uma busca sobre as verdades acerca de suas próprias noções como um novo ser humano em meio ao mundo hiper estilizado do diretor grego.

O mundo descolorido de Lanthimos vai ganhando vida conforme Bella adentra o lado de fora da casa de seu criador, Godwin, ao lidar com o domínio dos homens que fazem parte de sua vida com uma ingenuidade que quebra fortemente esse senso de autoridade que é imposto a ela. Uma idealização por parte dos olhos da protagonista é concedida à vivência longe de seu pequeno cativeiro ao descobrir seus impulsos sexuais, que são levados ao seu ápice quando mantém suas primeiras relações íntimas com Duncan, que postumamente se revela apenas como uma das figuras opressoras que desmoronam perante sua ingenuidade em desconstrução.

Seu cérebro em desenvolvimento prematuro entra em um forte contraste com seu corpo adulto, fazendo com que cada uma de suas interações com aquele mundo desconhecido por ela contribua para sua evolução como uma ser humana pensante e dona de suas ações. Esse processo percorre toda sua jornada, sua sexualidade é expandida, o contato com a arte é mágico e a existência das desgraças e dos males que quebram aquela realidade fascinante aos olhos de Bella, uma descoberta que não a deixa encantada como o resto, mas sim chocada, atribuindo um peso para sua mente ainda infantilizada em certos aspectos, gerando, a partir desse ponto, uma constante desilusão em relação a esse mundo apresentado.

Mesmo que se torne comum às narrativas que atrelam as jornadas das personagens femininas às suas figuras masculinas de referência, o longa trata esses lapsos de controle de forma cômica, como se a todo momento suas decisões fossem tomadas para ela por terceiros e esse controle não surtisse efeito em sua personalidade ingênua em construção. Bella não problematiza, ela não vê as maldades das atitudes tomadas pelos homens, ela simplesmente não as aceita, não toma consciência de sua posição aparentemente oprimida, sendo esse o detalhe que a faz tão poderosa em se tornar uma imagem de rebeldia feminina, ela faz o que lhe dá prazer, o que irá lhe conceder novas experiências, e, assim, pouco a pouco, o contraste entre seu corpo e sua mente vai decaindo, e sua identidade como uma mulher progressivamente se constrói.

Lanthimos buscou uma abordagem mais popular e direta em Pobres Criaturas, abordando um processo de autoconhecimento feminino de forma extremamente surreal e cômica, partindo dos olhos complexos e confusos de Bella Baxter que tornam tudo tão bonito e curioso, se desprendendo de tudo aquilo que lhe é imposto, para viver conforme sua vontade dita. Uma verdadeira busca pela sua própria liberdade perante tudo e todos.