Noriko (Setsuko Hara) está perfeitamente feliz vivendo com seu pai viúvo, Shukich (Chishū Ryū), e não tem planos de se casar – até que sua tia Masa (Haruko Sugimura) convence Shukichi de que, se ele não arranjar um casamento para sua filha de 27 anos em breve, ela provavelmente permanecerá sozinha pelo resto da vida. Noriko, porém, resiste à ideia.

A partir dessa simples premissa, pode-se ter a impressão de que o filme inteiro é simples; contudo, tal afirmação seria de um reducionismo imenso. Certamente, é uma obra que se baseia em nada mais do que as trivialidades da vida cotidiana, mas isso não a faz menos densa ou menos complexa do que uma ficção científica, por exemplo. Isso porque o diretor Yasujirō Ozu volta seu olhar para um dos aspectos mais fascinantes que existem: a essência humana; e toma como método para chegar nesse objeto a análise do ser em sua existência social.

Assim, a quase totalidade do longa é tomada basicamente por três tipos de cenas: diálogos cotidianos da protagonista Noriko com outros personagens, alguns poucos diálogos entre os coadjuvantes sobre Noriko, e momentos nos quais a câmera se limita a filmar objetos inanimados (os famosos pillow shots). Então, a protagonista, os coadjuvantes e o próprio ambiente são colocados em um mesmo plano de relevância, de modo a retirar a excepcionalidade daquelas pessoas, e as observar com a mesma paciência e minúcia com que se observa algo estático.

Contudo, isso não quer dizer que Pai e Filha seja apenas contemplativo. O ponto é outro: Ozu busca um meio termo entre o ritmo dinâmico de seu filme com o não movimento dos ambientes em que a trama se desenrola, para então desenvolver sua narrativa em um ritmo bem mais cadenciado do que o convencional, sem gerar uma quebra de expectativa no espectador. Afinal, a frivolidade de seus personagens pouco tem de excepcional em relação à natureza e o diretor convida quem assiste a ver a beleza dessa trivialidade, demonstrando que esse amontoado de conversas é mais do que suficiente para gerar fascínio pelas pessoas retratadas.

Ainda que essa beleza seja encantadora, Ozu vai bastante além ao tratar todo um turbilhão de emoções que excede a linguagem verbal e se dá no campo daquelas relações não faladas. Nisso, mostram-se essenciais as performances geniais de Chishū Ryū, e, principalmente, de Setsuko Hara, que constroem sutilezas para seus personagens a ponto de impossibilitar o entendimento sobre o que se passa em suas mentes. Desde o sorriso encantador de Noriko até a relação contraditória que ela e seu pai têm pelas tradições e pela sociedade em geral, destaca-se como é bela a eterna dúvida sobre tudo que ocorre na mente de cada indivíduo.

Essa beleza, entretanto, não está despojada de suas próprias contradições. Belo não é o mesmo que feliz e, como tudo que é próprio do ser humano, o senso de beleza carrega em si uma diversidade de totalidades contraditórias. É nesse sentido que a escolha de Ozu de trazer poucos aspectos não diegéticos à sua obra, em especial no âmbito da trilha sonora, se mostra genial: não interessa ao autor causar certas emoções predefinidas (como normalmente ocorre no melodrama, por exemplo, e de forma alguma falo isso como demérito), pois seu enfoque está em um olhar mais descritivo. Busca-se explorar com uma certa distância essa dialética social e emocional que ocorre mesmo nas questões mais cotidianas do ser.

O diretor também recusa um método mais tradicional de posicionamento de câmera e montagem. Diversas convenções, como a regra dos 180º (segundo a qual, em um diálogo a câmera deve se limitar a um semi-círculo de 180º para não confundir o espectador) tão comum no cinema americano, são relativizadas em prol da construção de um estilo próprio de narrativa, que se separa da literatura ao diminuir consideravelmente a perspectiva subjetiva de sua obra. Em outras palavras, o diretor acreditava em uma ideia de cinema diferente da hegemônica, criando um sistema em que a conexão do espectador se dá com a obra como um todo, e não por uma sintonia direta entre quem assiste e um determinado personagem. Por isso, trechos como dos pillow shots são tão importantes, assim como sua releitura sobre o ritmo e o tempo do cinema.

Pai e Filha pode ser um anti-espetáculo, mas é tão fascinante quanto os grandes espetáculos. O cinema de Yasujirō Ozu, além de ser um dos mais originais da história, é um tratado sobre o tempo e o espaço da arte cinematográfica, no qual consta algumas das visões mais únicas sobre os aspectos que fazem do cinema uma forma de expressão autônoma. E, para isso, não foi preciso nada mais do que o olhar de um gênio sobre uma personagem que se recusa a casar.