Devo dizer logo de saída que não sou a maior fã do primeiro filme e acredito que ele funcionaria perfeitamente (e até melhor) sem o Beetlejuice (Michael Keaton). Mas o longa original tem seus méritos, como a história contida, seja no local ou na quantidade de personagem, e o total desprezo por qualquer explicação sobre o que está acontecendo. A diversão de Os Fantasmas se Divertem (Burton, 1988) está em acompanhar as bizarrices daqueles personagens, humanos ou não, que ocasionalmente dançavam com a música de Harry Belafonte ou viajavam para uma região desértica com minhocas gigantes, à la Duna.
Esta continuação apresenta essas referências citadas, entre outras várias, como homenagens ao primeiro filme. No entanto expande o escopo da narrativa entre diversos personagens antigos e novos, ao ponto de perder o foco e acabar tendo que explicar em vários diálogos, e alguns flashbacks, o que aconteceu no passado distante, o que está acontecendo e o que acabou de acontecer. A inventividade dos flashbacks pelo menos traz um refresco às inúmeras explicações, mas no fim são mais um truquezinho para desviar a atenção e, mesmo com o apelo visual forte, se perdem no meio de tanto enredo.
A história é principalmente sobre Lydia (Winona Ryder), que agora é viúva, tem um programa de TV sobre fantasmas e um noivo “natureba” e imbecil (Justin Theroux), além de uma filha distante (Jenna Ortega). Ela também tem que voltar para a antiga casa, com a madrasta (Catherine O’Hara), para o enterro do pai. Beetlejuice, por sua vez, no além, descobre que está sendo perseguido por sua ex-esposa (Monica Bellucci) e um policial (Willem Dafoe) está disposto a encontrá-los.
De início o filme toma preciosos minutos para estabelecer onde estão todos os personagens antigos e introduzir os vários personagens novos, mas nem todos. Não sei se o diretor, Tim Burton, é o melhor quando precisa conduzir muitas histórias de uma vez. Ele opta, corretamente, pela mise-en-scène e decupagem típicas dos seus melhores trabalhos, com as referências góticas, do expressionismo, as cores vivas marcantes e contrastantes com o preto, além de piadas mais imagéticas e menos faladas; porém, no momento em que precisa entrelaçar as tramas, aquelas cenas marcantes não tem mais força dentro do contexto.
Um exemplo disso é a personagem Delores, da Monica Bellucci. Ela é apresentada com uma cena impactante, de alguns minutos, na qual o filme para apenas para isso, e logo é estabelecida como uma ameaça real para Beetlejuice e os outros fantasmas. Todavia, logo é relegada a aparições isoladas, não interage com outros personagens principais e sua história simplesmente inexiste para além de um flashback (interessante) com referência aos filmes de Mario Bava.
Apesar disso, não deixa de ser um filme agradável. Em boa parte do tempo tem piadinhas espirituosas — eu dei uma boa risada com o “trem das almas” (soul train) — e traz uma boa nostalgia sobre o primeiro. Imagino que quem tem apego ao original deverá se divertir apontando referências; além de também se divertir com a ótima performance de Michael Keaton, que parece nunca ter se afastado do personagem, bem como a de Winona Ryder, trazendo uma versão mais madura de Lydia, que continua perfeitamente de acordo com a jovem gótica do primeiro filme.