“Tentei expressar um sentimento específico da cultura coreana, mas todas as respostas dos diferentes públicos foram praticamente as mesmas. Basicamente, todos vivemos no mesmo país, chamado Capitalismo.” Essa foi a fala do cineasta sul-coreano Bong Joon-Ho durante uma entrevista sobre seu filme Parasita, que aborda a desigualdade social e os conflitos de classe na Coreia do Sul. Há uma semelhança muito forte entre essa recepção e a que O Som do Redor teve durante seu período de lançamento.
Uma característica marcante no cinema de Kleber Mendonça Filho é sua habilidade como cronista social, trazendo à tona questões particulares da maneira como o Brasil se estrutura historicamente a partir de um espaço específico – no caso, Recife, sua terra natal. Essas questões, que conferem um aspecto mais regional ao seu cinema, geram familiaridade com elementos próprios da classe média pernambucana, algo que se reflete ao longo de sua filmografia. Em Aquarius, ele utiliza o aspecto urbano de Recife para discutir a diferença entre preço e valor, explorando o conflito entre a lógica do mercado imobiliário e a lógica humana baseada em memórias e convivência. Já em Retratos Fantasmas, trata da importância de espaços culturais, como os cinemas de rua, na construção da identidade urbana e de como esses locais foram sucateados pela concentração do consumo cultural em shoppings.
Aqui, em O Som ao Redor, a discussão gira em torno da forma como pessoas de diferentes classes sociais se relacionam de maneira distante – muito por conta da classe média, que frequentemente se mostra acomodada e alheia à realidade de pessoas em condições mais vulneráveis, como seus empregados. O som, nesse contexto, representa um aspecto comum dessa classe: o medo inexistente. Qualquer ruído externo ganha destaque para evidenciar o incômodo sentido pela maioria dos personagens. A inquietação constante gera uma tensão contínua, pois o filme constrói suspense a partir dos espaços, estimulando a sensação de que algo pode acontecer a qualquer momento, embora nada efetivamente aconteça. As construções de suspense remetem ao cinema de John Carpenter, especialmente Halloween, que, mesmo sendo um filme slasher, se apoia fortemente em momentos de tensão, criando a ideia de perigo iminente.
O medo da violência é recorrente. Qualquer som vindo de fora é barulho – logo, é incômodo. O único som aceito é aquele que os próprios personagens produzem. E ninguém representa melhor essa característica do que Bia, interpretada por Maeve Jinkings, que passa o filme tentando calar o cachorro do vizinho, mas relaxa quando se senta no sofá e escuta Queen ou Caetano Veloso. Por se tratar de uma obra que valoriza um aspecto mais sensorial, Kleber recorre a elementos de mise-en-scène, como a ênfase em grades – nas janelas, portas, e até quando não são necessárias – para ressaltar a divisão social imposta pela classe média.
A questão histórica também é essencial para a construção da narrativa e reforça o aspecto regional do filme. Pernambuco é um estado que se desenvolveu muito em torno da monocultura da cana-de-açúcar, o que contribuiu para a formação de bairros de classe média no Recife cujas relações sociais e ambientais ainda carregam heranças coloniais. Não à toa, o próprio diretor afirmou que o bairro onde o filme se passa, é como um engenho de cana, o que justifica a sequência inicial com fotos antigas de trabalhadores rurais. As relações de poder mostradas no filme revelam como o lugar ainda guarda vestígios de um passado não superado, disfarçado pela modernidade e pela rotina.
Essa valorização da memória e da história é outro traço recorrente nos filmes de Kleber, muito influenciado pelo cinema de Eduardo Coutinho em Cabra Marcado para Morrer. um olhar sobre o Brasil contrastando eventos históricos ou vestígios do passado com o presente. Em Aquarius, a memória (representada pela história de vida de Clara no edifício) é a principal motivação para sua resistência. Em Bacurau, ela aparece como arma de resistência (simbolizada pelo museu), resgatando o passado como escudo contra a invasão estrangeira. Já em Retratos Fantasmas, a memória surge em relatos pessoais e afetivos sobre o passado de Recife, contrastando com o sucateamento cultural dos dias atuais.
O elemento histórico, portanto, enriquece ainda mais a linguagem do filme, em que o som das ruas pode ser interpretado como os fantasmas dos trabalhadores que voltam para assombrar a classe média – hoje confortável às custas do sangue derramado por trabalho escravo ou assalariado, como simbolizado na sequência da cachoeira e dos personagens João e Sofia explorando os arredores do antigo engenho do Seu Francisco. O personagem Clodoaldo, interpretado por Irandhir Santos, representa essa memória e mostra que sua presença ali se deve a um evento histórico marcante. Ele está ali para lembrar que a cobrança inevitavelmente virá – e, quando vier, será violenta.