O principal marketing do filme O Ritual está no cabeçalho dos pôsteres de divulgação, com a frase “A história real que inspirou O Exorcista. Isso se trata de uma mentira; afinal, o livro de William Peter Blatty e o clássico de 1973, dirigido por William Friedkin, foram inspirados no exorcismo de Roland Doe, enquanto este longa de David Midell usa como base o caso de Anna Ecklund, ocorrido vinte anos antes. Como se não bastasse, é bem óbvio, nos primeiros quinze minutos de projeção, que a premissa básica, de fato, pega emprestado vários elementos da obra de Blatty. Estruturais ou narrativos, tais elementos contribuem para que todo o filme seja bem previsível, o que não seria nenhum problema caso estivéssemos falando de um projeto comandado por um cineasta.

Não podemos nos enganar: nem todo filme que reconhece alguém como “diretor” é realmente conduzido por um cineasta. E se existe algum artista no interior de Midell, ele definitivamente não quis dar o ar de sua graça na produção deste longa, que parece saído das profundezas do pensamento algorítmico de um comitê publicitário. As diferentes etapas do exorcismo da garota Emma Schmidt (Abigail Cowen) são encenadas de forma repetitiva e aborrecida, de modo a ficar difícil distinguir cada um desses momentos. Em meio a isso, o Padre Joseph Steiger (Dan Stevens) cumpre seu papel como uma versão atualizada do Damien Karras do filme de Friedkin e enfrenta sua própria crise de fé, buscando soluções mais concretas para a condição de Schmidt. Ele é auxiliado pelo experiente Padre Theophilus Riesinger (Al Pacino), que aparentemente está no filme para citar versos ritualísticos, erguer crucifixos e sacudir frascos com água benta.

Trata-se de mais um filme de terror que reforça o quanto a década de 2020, com suas tendências mainstream, está enfraquecendo o gênero cada vez mais. Especialmente pelo terrível uso das sombras no digital, uma grande mancha lavada tão carente de contraste quanto o desenvolvimento dramático pífio de seus personagens. Além disso, por ser inspirado em fatos reais e tratar de figuras que realmente existiram, Midell busca uma identidade semidocumental no projeto e acaba atingindo uma caricatura formal, com a câmera de Adam Biddle (o diretor de fotografia) surgindo ridiculamente tremida a todo momento, do mais simples diálogo pseudoexistencial ao mais intenso dos rituais, em uma demonstração de imaturidade cênica que eu não via há tempos.

O que impede o longa de ficar entre os piores lançamentos desta década é justamente o esforço que seu elenco emprega aos seus fraquíssimos personagens. Stevens, por exemplo, é um bom rosto para esse tipo de projeto e tenta a todo custo conferir mais peso ao Padre Steiger, muitas vezes conseguindo ser o mais próximo de um ser humano verdadeiro que o filme tem a oferecer. O mesmo vale para Ashley Greene, a qual o roteiro relega a uma personagem insossa. E o que dizer sobre a participação de Al Pacino? Digamos que ser um dos maiores atores de todos os tempos não te exime de péssimas escolhas – ou até mesmo de péssimas performances. Mas também pudera…

Eu sinceramente não tenho muito a dizer sobre O Ritual, além do fato de parecer um filme feito por máquinas a partir de uma diretriz específica: fazer uma nova versão genérica de O Exorcista. Missão dada é missão cumprida e a máquina faz seu serviço ao juntar as decisões de linguagem mais bizarras das últimas tendências e enfiar em uma obra que jamais consegue sair da mediocridade. O cinema industrial de terror em sua fase mais zumbificada possível.

(Se bem que zumbis costumam ser mais interessantes!)