Em Longlegs – Vínculo Mortal (2024), o diretor Osgood Perkins desenvolveu um método formal bem interessante que, ao mesmo tempo que constrói sua narrativa, ao longo do tempo me parece tê-la limitado em alguns momentos. O uso da lente grande angular (aquela que amplia o campo de visão periférica) para deformar a imagem e causar um desconforto bem único foi, de longe, a experimentação que mais me marcou no filme anterior do diretor. Essa abordagem técnica mais virtuosa e a maneira como ele trabalhou com um terror mais intimista e sensorial fizeram muitos relacionarem seus trabalhos com essa tendência contemporânea de filmes de terror “mais sérios” e todo aquele papo pseudointelectual (e elitista) do “pós-terror”. Gosto de vários dos filmes dessa tendência, mas ela me pareceu criar um espectador de cinema casual mal-acostumado: se o filme não tem uma resolução dramática mais profunda, ele vai ser objetivamente ruim.

Não é muito difícil perceber a fragilidade de uma ideia como essa, já que o terror sempre teve seus filmes mais dramaticamente profundos e com ideias sensoriais mais diretas; ao mesmo tempo, ao longo de mais de 100 anos de história do terror no cinema, sempre existiram os filmes mais diretos, com conceitos mais simples (monstros, objetos sobrenaturais etc.), mas ainda muito inventivos. Perkins sabe disso e compreende que estímulos mais diretos, de maneiras específicas, podem ser igualmente esplêndidos. O uso da lente em Longlegs é um exemplo mais técnico, mas é algo que causa um efeito bem ímpar no espectador e parece partir de uma ideia próxima. Nessa nova empreitada, temos uma obra que compreende diversas convenções narrativas e formais do terror para construir comédia de maneira bem ácida. Fui graciosamente surpreendido com uma experiência bem divertida que superou as expectativas!

Em O Macaco (2025), acompanhamos dois irmãos gêmeos que, após darem corda em um macaco de brinquedo, passam por uma série de tragédias brutais e bizarras que acabam com sua família. Achando que haviam se livrado do macaco, 25 anos depois, as mortes voltam a acontecer, e o protagonista retorna à cidade natal para resolver o problema.

É um filme que mantém uma construção de cena bem autoral e parece trabalhar o espaço e a composição de maneira a explorar o artifício do macaco paranormal com uma dinâmica cômica e espontânea que, em diversos momentos, tem traços bem performáticos, remetendo à franquia Premonição (2000-atualmente). Em diversos momentos, me parece ser um trabalho totalmente focado nessa ideia do artifício do filme, essa regra de que sempre que alguém der corda no boneco, alguém vai morrer de maneira brutal e bizarra. Seja no desenvolvimento dramático ou nas piadinhas meio soltas, parece que todo o resto do filme existe como uma desculpa para o diretor performar essas mortes de maneira controlada e visivelmente muito pensada. Isso me deixa muito feliz vindo de um diretor que tinha tudo para construir uma personalidade talvez meio ególatra e “intelectualizada” (consigo pensar em algumas falas bem comprometedoras), mas que, nesse filme, assume um fascínio pelas possibilidades narrativas do cinema de gênero, o que me agrada muito.

O Macaco (2025) é um trabalho nada pretensioso que se sustenta justamente pela inventividade no trabalho das convenções dos gêneros que encena. Perkins tem uma obra que deve agradar o público “menos exigente”, que foi atrás de um terror divertido.