Eu deixei um pequeno comentário no meu Letterboxd, logo depois de sair da sala do cinema, dizendo como esse filme tinha me remetido bastante a Cure, do Kiyoshi Kurosawa, e O Silêncio dos Inocentes, de Jonathan Demme. Percebi grandes inspirações do diretor Osgood Perkins ao desenhar seu filme através de uma estética extremamente fúnebre e trevosa, colocando a jovem detetive reclusa Lee Harper (Maika Monroe), em uma perseguição atrás de um misterioso serial killer que se auto intitula como Longlegs (Nicolas Cage), um homem que ela aparentemente possui uma ligação sombria. Por acaso essa premissa não te lembrou a relação de Clarice Starling e Hannibal Lecter?

Juntamente a isso, há uma atmosfera de terror que, em vez de apelar para figuras assustadoras ou jumpscares mal inseridos na história, cria um pequeno mundo que leva o terror não apenas para seu corpo, mas também para sua mente. Essas duas grandes influências do terror deram origem Longlegs: Vínculo Mortal. Longlegs não é um filme de investigação policial, apesar de possuir sua base narrativa no processo de busca do serial killer. O diretor Osgood Perkins opta pelo estabelecimento de uma estética sombria que alavanca o horror de sua história para além da narrativa, de forma a construir uma atmosfera própria e assustadora.

Um dos pontos que mais chama a atenção na obra é o modus operandi do assassino. Longlegs não assassina diretamente suas vítimas, circunstância que torna o caso complexo para Lee, que vê as famílias vítimas do maníaco exterminadas pelo próprio pai, enquanto descobre fatos até então ocultos, como a possível existência de um servente do Diabo que sacrificaria o princípio símbolo religioso cristão: a família.

Lee Harper é quase uma versão mais reclusa e inquieta da personagem de Jodie Foster em O Silêncio dos Inocentes; nós ganhamos sua simpatia apenas pela personalidade intrínseca, que vai diretamente ao encontro do seu ambiente violento de trabalho. Perkins não esconde de onde vieram suas ideias, e isso não se torna algo negativo dentro do longa, ainda mais quando conhecemos logo de cara o antagonista da história. Longlegs é maluco, pirado, esquisito não apenas em sua aparência, mas também em seu comportamento atrofiado e esquizofrênico. Isso, somado ao grande tom místico e maléfico que se constrói ao redor do personagem, faz dele uma ameaça para todos, e especialmente para Lee, relação que cria uma dinâmica mais clássica de herói e vilão.

Apesar de Perkins possuir alguns cacoetes vindos dessa inexistente onda pretensiosa do “pós-terror” — principalmente na tentativa de produzir uma experiência sensorial própria do terror moderno — mesmo essas características funcionam bem no trabalho do diretor, que constrói uma tensão extrema e crescente que explode no clímax. O arco da investigação proposta por Lee e Carter (Blair Underwood), faz com que esse aspecto sensorial não tome completa conta do filme, que permanece alternando entre a construção dramática e a mais assombrosa, e realiza ambas com maestria.

Longlegs: Vínculo Mortal é um dos melhores longas de terror da atual década, e também como um dos principais nomes dentro do gênero de investigação policial. Espero que Osgood Perkins trabalhe mais com essa ideia.