Diferente do seu filme anterior (Deus E O Diabo Na Terra Do Sol, 1964), este aqui é uma obra completa em alterar o foco para colocar o Antônio das Mortes, coadjuvante do longa precedente, como o protagonista e contar uma história totalmente diferente, mas partindo dos mesmos princípios e conceitos. É um filme que acompanha o tempo em que foi lançado ao mostrar um mercenário assassino de cangaceiros num Brasil onde não havia mais cangaceiros.
Através dessa desconstrução que Glauber faz de um personagem mitológico, Antônio se vê mergulhando em uma crise profunda, onde ele não encontra mais sentido na vida e vive na tristeza, pois ele era chamado de “matador de cangaceiro”; e como não haviam mais, pois todos já foram mortos, não há mais porquê em continuar. Glauber Rocha mostra que a figura do jagunço é uma imagem passada e caricata que baseia seus propósitos em jargões moldados pelos ricos e poderosos em prol de interesses particulares. E quando a caricatura deixa de ser útil, o que resta é o ser humano.
A obra também abraça uma aura mística e poética que remete a um sonho e faz com que, visualmente e conceitualmente, o filme possa se expandir e assumir novas maneiras de arte livre que escapam do convencional. Muito desse misticismo também se deve à forte manipulação da estética épica e despojada com características bastantes familiares da cultura brasileira, principalmente nordestina; como por exemplo: falas recitadas em cordel, alegorias religiosas relacionadas ao candomblé, referências cristãs, cânticos populares, etc. Nota-se que o filme preserva o estilo de direção exacerbado e muito característico do Glauber, porém dilatado para diversas possibilidades de criar algo novo e inventivo.
As inserções da cultura nacional na abordagem não são apenas referências; mas, sim, uma construção de uma identidade brasileira forte que, por ser encenada, se permite ser manifestada em vários aspectos. A forma como a poesia do filme é um caminho para a interação do mundo natural com o mundo espiritual é algo executado de forma muito bela. A espiritualidade ali é diversificada, pois carrega traços do cristianismo e das religiões de matriz africana. Exemplo esse muito claro no título do filme que faz referência a São Jorge, santo conhecido pela iconografia dele matando um dragão com uma lança, venerado tanto pelo catolicismo como pela umbanda com Ogum.
Os conceitos de fé e redenção são fortes na construção narrativa de uma história do Brasil pois, além de sermos um país culturalmente diverso, somos um país bastante religioso que se inspira muito em conceitos que vão além da razão humana como uma forma de proteção e guia espiritual e diário. E é esse guia espiritual que desconstrói Antônio das Mortes e que move seu arco narrativo. Conforme o filme mergulha na sua melancolia, a obra permite que vejamos a situação miserável e pobre que o povo daquele sertão passa nas mãos de jagunços e grandes proprietários de terras. Essa realidade que, diferente de Antônio, não é passado, aumenta mais sua crise existencial ao enxergar a factualidade que ele era visto como inimigo e como os cangaceiros que ele, por muito tempo tinha assassinado eram figuras importantes para essas pessoas e que simbolizavam uma resistência a pobreza presente. Um equilíbrio bem balanceado do aspecto coletivo com conflitos individuais.
Seu contato com a espiritualidade o deixa em um dilema moral de como ele poderia ressignificar sua vida de forma que ele pudesse se redimir de seus crimes e alcançar uma paz interna. Depois do choque de realidade que teve, cabe a ele escolher se será mais uma vez o dragão da maldade que irá castigar o povo pobre, ou se será o santo guerreiro que irá proteger este mesmo povo das garras dos verdadeiros inimigos. No final, ele não se torna nem um nem outro. Pois Antônio das Mortes é uma figura que pertence ao passado, deslocada no presente e o filme faz questão de mostrar isso visualmente, com o homem vestido de jagunço andando em bairros simples e rodovias movimentadas.
Apesar de ter se redimido, não havia mais nada que ele pudesse fazer. Sua jornada terminou e sua paz foi almejada. No momento, a única coisa que lhe restava era se retirar e voltar para o limbo de onde saiu, agora renovado, para que outros pudessem construir uma nova realidade. O passado se foi, mas o presente fica. Agora está conosco a decisão de o que fazermos com ele.