Recentemente, o diretor Quentin Tarantino fez um comentário que irritou a comunidade cinéfila desmerecendo a prática de assistir filmes pela televisão, julgando-a como descartável. O ponto do cineasta era exaltar a ida ao cinema como coletiva e memorável (deixando subentendido que na TV não é assim). Dessa forma, Tarantino ressalta a aura do cinema como um espaço especial para experiências inesquecíveis, relegando a televisão a um local mais passageiro e corriqueiro. Por mais que eu não concorde com a linha de raciocínio do diretor, aqui acredito que se aplica, pois O Auto da Compadecida 2 parece demais algo feito para a telinha, dentro da programação de fim de ano da Rede Globo.

O primeiro filme já era originalmente uma série de TV, já tinha um formato que funcionava bem como entretenimento familiar agradável. Não concordo com Tarantino sobre isso ser um demérito, é apenas uma característica. Porém, quando os formatos se misturam fica notável o que seria a experiência ideal, o que ocorre com o corte da minissérie de 2000 e também agora em O Auto da Compadecida 2, que possui um valor de produção e um escopo menor ainda do que o do primeiro longa.

Esta sequência tem uma levíssima inspiração na peça de Ariano Suassuna, A Farsa da Boa Preguiça, introduzindo a socialite Clarabela (Fabiula Nascimento) e uma trama sobre poesia e traição, mas é essencialmente um exercício de nostalgia pelo filme de 2000. A produção, desta vez, escolheu gravar em estúdio em vez de locações, o que cria uma artificialidade, quase teatral, mas que não é explorada de uma maneira interessante na mise en scéne ou na narrativa, deixando o filme apenas feio e parecendo ser uma escolha por corte de custos. Assim como o recurso de usar animação semelhante a colagens para as histórias de Chicó, que, apesar de bonitas e bem feitas, não combinam com a estética do filme.

Passados 25 anos dos acontecimentos de O Auto da Compadecida, João Grilo (Matheus Nachtergaele) volta para Taperoá e reencontra Chicó (Selton Mello) morando na antiga igreja e ganhando dinheiro contando sobre a ressurreição do amigo. Logo, João Grilo entende que é adorado pela população e usa essa informação para enganar os dois burgueses da cidade: o Coronel Ernani (Humberto Martins) e o empresário radialista Arlindo (Eduardo Sterblitch), e, assim, manipular as eleições. A química entre os dois amigos continua intacta, sendo o grande destaque aqui — além de Rosinha (Virginia Cavendish) reaparecendo como caminhoneira independente.

No entanto, o roteiro cria diversas situações e introduz alguns outros personagens que ficam soltos pelo caminho, não tendo qualquer influência real na trama, que talvez fosse simples e derivada demais do primeiro filme que não completaria a duração de um longa. Um exemplo disso é um amigo camelô de João Grilo, Antônio do Amor (Luís Miranda), que visita a cidade para vender tranqueira e ajuda nas maquinações de João, mas, no fim das contas, não cria situações engraçadas e nem influencia os acontecimentos. Outra cena é a do julgamento divino, que aqui ocorre novamente como no primeiro filme, mas com menos personagens, tempo de tela e também sem consequência e razão de ser – parece que a necessidade de se criar de novo a conversa com Jesus e Nossa Senhora é apenas a de emular a lembrança do primeiro filme.

Talvez aqui seja um spoiler menor, então pule caso não queira saber. Mas outra questão é que em algum ponto os planos de João Grilo parecem que vão por um caminho um tanto quanto catártico, visto o panorama criado no filme que lembra um pouco acontecimentos recentes no Brasil, como a eleição para a prefeitura de São Paulo, mas são frustrados. A resolução do conflito é feita às pressas e desconexa, desembocando na ida do personagem para o julgamento. Isso para mim foi uma covardia tremenda da produção, pois trata João Grilo como um herói do povo (aqui uma massa disforme) num primeiro momento apenas para reduzir ele e Chicó ao mesmo lugar em que estavam no primeiro longa. Dessa forma, dando a “vitória” novamente aos poderosos da região.

No fim das contas, a expectativa criada para um lançamento de cinema é grande, pela aura daquele espaço, e o filme não atinge isso. Ele tem um formato típico das minisséries globais, que são bem produzidas de modo geral, mas feitas para uma tela menor. Ainda tem momentos engraçadinhos e divertidos – muito por conta do excelente elenco – , mas é um pouco chapa branca demais se pensarmos no legado de Ariano Suassuna, que além de escritor era um enorme divulgador da cultura popular nordestina e socialista declarado.