Richard Linklater marcou o cinema com suas narrativas intrusivas que utilizam o tempo como vivência, diferentemente das estruturas fílmicas tradicionais, que usam desse recurso como uma simples estrutura narrativa. Seus filmes parecem menos focados em narrar “histórias” no sentido usual e mais em registrar pessoas pensando, conversando e mudando como se a câmera estivesse acompanhando a vida acontecer. Dessa forma, o diretor constrói uma obra que estabelece um diálogo tanto com o cinema europeu contemporâneo — especialmente com aqueles da Nouvelle Vague Francesa — quanto com as tradições americanas do road movie, do coming of age e das conversas informais. Ele filma o que o cinema geralmente deixa de lado: as pausas, os pensamentos expressos em voz alta, os momentos em que nada acontece e, paradoxalmente, tudo acontece.
Nouvelle Vague é uma dramatização que retrata os bastidores da produção de Acossado (1960), o clássico de Jean-Luc Godard que originou o movimento. Linklater gravou em francês, no formato 4:3 e em preto e branco, enfatizando a ligação estética com o cinema daquele período. No longa, ele retoma esse mesmo tema: o processo criativo é composto por momentos aparentemente insignificantes, diálogos soltos e decisões improvisadas, a mesma matéria-prima que seus próprios filmes sempre destacam.
O longa guarda as características de Linklater quando não tenta criar tramas que têm começo, meio e fim. Nouvelle Vague não é uma obra que segue as ideia típicas de uma cinebiografia casual: não se aprofunda na persona de Jean-Luc Godard (Guillaume Marbeck) como um ser humano em si, sendo inteiramente retratado de maneira caricata, idealizada; um retrato balanceado entre a personalidade obsessiva pela arte e o ignorante sarcástico e charmoso. Esse detalhe não se limita à figura de Godard, mas também de todos à sua volta, tornando tudo quase uma pequena pista agradável para aqueles que conhecem todo o contexto em que o filme se passa. Ele aponta referências a todo momento, como se fosse uma piscadela de Linklater aos outros cinéfilos que estão assistindo ao filme. Isso pode até parecer um detalhe divertido, se tivesse alguma ideia sólida sobre como lidar com essas referências.
Ele é sempre direto nas introduções, não apenas nos diálogos, mas também na forma como o diretor opta por apresentar os outros personagens: Claude Chabrol, Jacque Rivette, François Truffaut e outros famosos diretores franceses que marcaram a história durante essa época. Aborda frequentemente os personagens parados olhando diretamente para a câmera — característica típica de muitos filmes do movimento — com seus nomes aparecendo embaixo. Nesse aspecto, Linklater brinca com essas aparições como se estivesse estendendo aquele pequeno mundo que rodeia Jean-Luc Godard, um espaço narrativo que reconhece bem suas influências.
Como disse antes, ele é sempre direto quando se trata de expor suas referências cinematográficas, não apenas em seu visual e em sua forma, mas também em seu texto. Algo que acaba tornando essa pequena jornada artística de Jean-Luc Godard um campo para que o diretor exponha esses detalhes, que até soa divertido em certos momentos, mas que se perde nesse excesso.