Após tudo o que ocorreu durante a epidemia de Covid-19, que parou o mundo por quase dois anos, é claro que este seria um tema a ser muito explorado no cinema. O que passamos com o isolamento, o medo de tocar as pessoas, de pegar a doença e passar para nossos parentes mais sensíveis, a escassez de alguns produtos nos mercados, a falta de informação e do contato com o mundo exterior, as crianças que nasceram e/ou cresceram isoladas. Todo esse pesadelo está de alguma forma em Não Solte!.

No filme, o isolamento de uma mãe (Halle Berry), dois filhos e um cão fofo é feito em uma casa de madeira abençoada, no meio de uma floresta fechada. Para sair, eles precisam estar sempre conectados ao lugar, e fazem isso por meio de uma corda. Essa foi a solução que o avô, pai da mãe, conseguiu para combater o Mal – uma ameaça abstrata que pode tomar forma física para convencer a pessoa a chegar próxima o suficiente, para que a entidade possa tocá-la. No entanto, só a mãe (e a avó) consegue vê-la. Quando isso acontece, o Mal controla o corpo e este pode entrar na casa e completar a missão de eliminar todos os seres humanos de lá (ele não liga para animais).

Nós, como espectadores, não sabemos o que aconteceu antes e, aparentemente, os três foram os únicos que conseguiram sobreviver ao Mal, que acometeu a humanidade. A sobrevivência deles, porém, é cada vez mais difícil, visto que podem chegar a um raio limitado para fora da casa e os recursos vão ficando escassos, principalmente a comida. Dessa forma criamos a expectativa de que algo certamente vai dar errado e desencadear o terror prometido pelo filme, aí é que está o problema.

Por ser bem derivativo de outros filmes, estilo Bird Box (Bier, 2018), Um Lugar Silencioso (Krasinski, 2018) ou A Vila (Shyamalan, 2004), e até pela semelhança real com a pandemia de Covid-19, alguns caminhos vêm à mente ao assistir o filme. Dois deles são cruciais quando entende-se que há possibilidades para que o Mal exista ou não. Entretanto, uma parece uma solução que necessitaria de ser melhor estabelecida, no caso se o Mal não existe, e a outra seria um pouco boba e preguiçosa, sem um bom desenvolvimento, no caso do Mal existir. Portanto, a construção inicial da narrativa não cria uma base sólida para que haja um bom desenrolar da ótima premissa, sendo aquela frágil e comum demais.

Assim, o que sucede é uma corrida desnecessária para tentar chocar o espectador ou criar reviravoltas, o que seria muito difícil, tendo em vista que em momento algum o filme propõe algo novo e também não se coloca como um clichê com uma roupagem diferente e interessante – o que de início parece que vai ser, pela montagem inicial. No entanto, até a maneira de filmar algumas cenas, como o sonambulismo de uma das crianças ou a raiva da mãe, cai no comum do gênero.

Inclusive, vale ressaltar também que um dos temas do longa, que é a maternidade solo, é apresentado de maneira em que a mãe parece que será uma ameaça, ao mesmo tempo que insiste na história do “poder do amor”. Dois clichês divergentes, mas ambos exigem e exaltam o sacrifício da maternidade – algo saturado no terror e que aqui não contribui com novidades para além de uma ótima atuação de Halle Berry. Ela consegue equilibrar muito bem o cuidado e desespero pela segurança das crianças.

No final, fica mais o terror de quando lembramos de como era o isolamento, há alguns anos atrás, do que o medo de uma possível entidade maligna, que escolhe formas um tanto quanto normais para surgir – e por toda a duração a dúvida se mantém sobre qual é o verdadeiro Mal. Para estabelecer o clima sombrio, o filme até tenta colocar uma nojeirinha, barulhos muito altos e uns jump scares aqui e ali, mas a aflição maior é pela segurança do cachorro mesmo.