Inegavelmente, há muita beleza em Nada. Com seu ritmo cadenciado, temos a oportunidade de apreciar os pequenos momentos, assim como suas breves rupturas. Junto disso, o silêncio nos leva a uma ambientação bucólica, a qual fica em um limiar entre a depressão e a paz. É um vazio ora reconfortante, ora sufocante. E, também, ora real, ora fantástico, ainda que deixe a desejar em ambos.
Na obra — que marca a estreia de Adriano Guimarães na direção — acompanhamos Ana (Bel Kowarick) moradora da cidade que é forçada a retornar à fazenda onde cresceu após sua irmã Tereza (Denise Stutz) descobrir uma doença no cérebro que altera seu estado de consciência. Durante sua estadia, porém, Ana descobre haver uma misteriosa antena no local, a qual afeta a percepção das personagens sobre a realidade e força ela a enfrentar a sua própria memória.
Assim, o longa constrói lentamente sua atmosfera. Somos introduzidos àquele universo do campo de maneira progressiva e acompanhamos a lenta reconstrução de laços entre as irmãs, que se distanciaram desde a saída de Ana da casa. É nesses momentos mais confortáveis que Guimarães explora um outro lado da ambientação bucólica: o vazio em suas várias formas, tanto geográfico quanto sonoro e, claro, imagético.
Esse vazio, contudo, é eventualmente quebrado por trechos mais angustiantes. Ao longo do filme, os espaços são preenchidos pelos fantasmas dos pais e de um cachorro, porém sem nunca se tornar um terror. Pelo contrário, é tudo tratado com uma naturalidade curiosa, como se a realidade se misturasse com a ilusão e o presente e o passado se fundissem sem espanto por parte das personagens.
É aí que entra o lado fantástico da trama. A antena misteriosa causa uma ruptura no tecido antes realista e quase documental e busca completar os vazios, gerando contradições na própria linguagem do longa: se antes era tudo silencioso, a antena causa um barulho alto e irritante; se antes a solidão imperava, agora a memória se torna viva e passa a acompanhar as pessoas que lá vivem; se antes era tudo natural, agora há uma peça de metal lá fora, a qual ninguém sabe da onde veio e qual seria a sua exata função.
Entretanto, toda essa construção de um atmosfera ao mesmo tempo realista e fantástica infelizmente não é tão bem utilizada. O diretor acaba se preocupando tanto com as minúcias de seu ambiente que não sobra tempo para efetivamente desenvolver uma ideia com ele, gerando somente um tédio constante. Vale dizer que não sou contra o tédio no cinema, porém a forma como ele permeia a narrativa do presente longa não se amolda a outras boas obras com esse recurso; não é um tédio como ideia cinematográfica, é um tédio pela expectativa não correspondida. Muito disso ocorre quando a narrativa se propõe a ter esse realismo fantástico e não explora bem seu lado realista nem fantástico, visto que são tratados de maneira bastante fria e distante. Há pouco aprofundamento dos personagens, assim como um reduzido número de cenas em que podemos observar os efeitos reais da antena.
Diante disso, Nada é uma obra com uma proposta bastante curiosa, mas que não chega a aproveitar todo seu potencial. É um filme permeado não só de boas ideias como de uma construção de atmosfera ímpar e é capaz de provocar reflexões sobre a memória e a importância de esquecer. Todavia, essas reflexões não vão muito além da superfície, nem chegam a uma conclusão satisfatória.